Culinária e Gastronomia
09/01/2019 - 04h48

Tiradentes


Além da gastronomia incrível, dos cenários e sua rica história, tem a inigualável acolhida dos mineiros
 
Cheguei a Belo Horizonte em um começo de tarde escuro e cinzento. Pela frente, quase quatro horas de asfalto precário, debaixo de chuva. Mas o show já começa pelo caminho. Pouco depois de deixar a capital mineira, fizemos uma parada mais do que estratégica na Lanchonete e Restaurante Belvedere, uma estabelecimento simples de beira de estrada, tradicional e famoso pela qualidade de sua linguiça, servida no pão francês fresquinho ou, como a maioria pede, no pão de queijo com salada e requeijão. O segredo da qualidade, segundo o proprietário Inácio de Santana, é que a linguiça leva somente dois cortes suínos: pazinha e fraldinha. Estabelecido há 49 anos no local, Inácio tem, ao lado do restaurante, uma pequena fábrica de linguiça toda automatizada, e diariamente vende cerca de 700 kg. Num fim de semana, passam por lá mais de 1.500 pessoas e são vendidos cerca de 1.500 kg de linguiça.
 
Seguimos caminho debaixo de chuva e mais adiante, próximo a Tiradentes, outra parada recompensadora em Lagoa Dourada, a capital brasileira do Rocambole, para provar, dentre muitos outros sabores disponíveis, um tradicional recheado de doce de leite, no Legítimo Rocambole.
 
Chegamos a Tiradentes ao final da tarde. O tempo continuava cinzento, mas não obscureceu o charme das vielas e ruas estreitas, com seu calçamento alto e irregular e o pavimento histórico de antigas pedras, ladeados por casarios antigos e bem cuidados. Estabeleci-me no acolhedor Santíssimo, um resort bastante amplo, com estilo colonial e muito confortável, onde o silêncio se faz sentir em noites muito tranquilas. De lá, saí para visitar, antes do anoitecer, um pequeno produtor de belas cerâmicas utilitárias, a Rose, do ateliê RM. Pouco depois, à noite, abri com chave de ouro a primeira boa experiência com a gastronomia local, no acolhedor Restaurante Tragaluz, com sua fina e delicada gastronomia mineira, onde se destacam o equilíbrio e a leveza dos pratos e o atencioso serviço, num ambiente muito agradável à luz de velas, em um antigo casarão colonial. Pelo restaurante, diversas coleções de velhos objetos, alguns encontrados em uma reforma estrutural do casario.
 
Tiradentes é uma cidade pequena, com cerca de 8.000 habitantes. Apesar do nome, não foi lá que nasceu o herói da Inconfidência Mineira, que nasceu a 20 km de distância, em São João Del Rey. Para refrescar a memória, no final do século 18, o Brasil ainda era uma colônia portuguesa e penava com toda sorte de abusos econômicos e políticos, como por exemplo, a cobrança de taxas e impostos altíssimos. A metrópole decretava leis em série que estrangulavam o desenvolvimento na colônia, como em 1785, quando proibiu o funcionamento de indústrias fabris por aqui. Neste período, extraía-se muito ouro em Minas Gerais. Quem encontrasse ouro tinha de pagar o quinto, que correspondia a 20% do que era encontrado. Os que eram pegos com ouro “ilegal”, que não haviam pago o imposto, sofriam punições severas e eventualmente eram degredados para a África. Com a exploração, o ouro diminuiu nas minas. Mesmo assim, a metrópole não diminuía a cobrança. Nesta época, Portugal criou a Derrama, decretando que cada região de exploração de ouro deveria pagar 100 arrobas de ouro (1.500 quilos) por ano para a metrópole. Quando a região não conseguia cumprir estas exigências, soldados da coroa entravam nas casas das famílias para retirar pertences até completar o valor devido. Tudo isso gerou uma crescente insatisfação que culminou numa tentativa fracassada de conseguir a independência do Brasil. O grupo, liderado pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, era formado pelos poetas Tomas Antonio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, o dono de mina Inácio de Alvarenga, o padre Rolim e outros representantes da elite mineira. Frustrada a tentativa, Tiradentes for enforcado, seu corpo esquartejado e mantido a vista do público, como forma de desencorajar novas tentativas. Morto como um simples bandido, ele se tornou um dos mais importantes heróis brasileiros e seu feriado se comemora no dia 21 de Abril. Essa é a história oficial, e há sempre controvérsias e contradições históricas que cercam os fatos.
 
Durante séculos, Tiradentes foi apenas uma cidadezinha charmosa e histórica de Minas Gerais, ao lado da maior e mais conhecida, São João Del Rey. Sua fama se devia unicamente pelos fatos históricos que na região se desenrolaram. Na década de 1990, Ralph Justino, um empresário carioca, que por muitos anos havia promovido o cantor Fagner, decidiu deixar a correria do Rio de Janeiro e se mudou para Tiradentes. Em 1998, ele lançou a primeira edição do Festival de Gastronomia de Tiradentes, um evento que, como tantos outros, começou modestamente, com alguns poucos restaurantes locais e meia dúzia de chefs convidados servindo comida na praça. Ao longo dos anos, o festival foi se tornando cada vez mais conhecido e sua estrutura foi se sofisticando. Cada vez mais, chefs brasileiros e estrangeiros passaram a participar do evento, que ganhou enorme importância no calendário gastronômico brasileiro e catapultou Tiradentes à fama. Posteriormente, Ralph se tornou prefeito da cidade e, sempre inquieto, implementou novas iniciativas de cunho gastronômico, cultural e sustentável, como o Festival de Vinho e Jazz, outro evento que vem ganhando importância no já famoso calendário de Tiradentes. Todos os anos, aproximadamente 25 mil pessoas visitam a cidade durante a semana que acontece o Festival de Gastronomia, com grande frequência de visitantes de diversos países. Em 2018, a 21ª edição do festival celebrou os 300 anos da cidade de Tiradentes.
 
Dalton Cipriani tem uma pequena e movimentada agência de turismo local desde 2003, a Uai Trip, e conduz os visitantes em passeios encantadores de bicicleta, caminhadas, cachoeiras, através de montanhas, pastagens, trilhas e campos de antigas fazendas, levando os turistas para conhecer produtores de doces de leite, cachaças, guloseimas artesanais e restaurantes. Durante os três dias em que fiquei na cidade, fui levado para baixo e para cima por ele, que incansável, queria me mostrar o máximo de coisas.
 
Falando em cachaça, um dos lugares históricos que vale a visita fica na pequena cidade vizinha de Coronel Xavier Chaves, de apenas 3.300 habitantes. Um alambique em uma antiga fazenda que até hoje pertence aos descendentes de Tiradentes, e que desde aqueles tempos, jamais deixou de produzir cachaça em uma safra sequer. De cor transparente, com aroma elegante e paladar macio, é uma bebida de altíssima qualidade, produzida por Nando Chaves, que durante as várias horas em que lá permaneci, enquanto a chuva não dava trégua, fritava mandioca ininterruptamente, sobre a qual despejava generosas colheradas de geleia artesanal de frutas, que devorávamos acompanhando de seguidas doses de cachaça.
 
Dia seguinte começou com uma visita a família do Bolota, que produz o famoso Doce de Leite do Bolota, uma iguaria finíssima, cujo preparo leva 15 litros de leite puro e apenas 200 gramas de açúcar, resultando em um doce saborosamente delicado. Além do doce de leite a família do já falecido Bolota, que já foi mais de uma vez a programas de televisão para mostrar essa iguaria, produz também deliciosos doces de frutas em calda, como laranja, figo e goiaba, sempre com adição mínima de açúcar, valorizando a doçura natural e a textura dos ingredientes. Na linha tradicional, o Zé Doceiro faz diariamente um doce de leite bastante cobiçado pelos turistas.
 
Na vizinha São João Del Rey, conheci o produtor de um delicioso queijo artesanal, o Catauá, produzido a partir de leite fresco de gado Jersey. Seus produtores, João Dutra e sua filha Mariana Resende, pesquisaram e resgataram o sabor tradicional dos antigos queijos da Mantiqueira. O leite é orgânico e o gado é tratado somente com homeopatia, quando necessário. Na produção do queijo, não é empregado nenhum tipo de insumo artificial, somente o leite fresco e o pingo, o agente fermentativo obtido da produção anterior. Uma vez pronto, o queijo amadurece por algumas semanas, mas pode envelhecer por alguns meses, tornando-se mais seco, pungente e de sabor mais rico.
 
Em seguida, rumamos ao pequeno restaurante da Filó, personagem conhecida dos viajantes e dos festivais de gastronomia. Lá, experimentei o delicioso Frango com Ora Pró Nobis, uma de suas mais saborosas especialidades. Ao lado, a produtora Joelma Taroco faz o queijo que leva seu sobrenome, outra iguaria local que segue a receita do tradicional queijo mineiro, com excelente cremosidade e sabor vívido.
 
À noite, foi a vez de conhecer um dos melhores restaurantes da cidade, o Pacco e Bacco. Com ambiente moderno e serviço ágil e atencioso, o restaurante tem a melhor carta de vinhos da região, com cerca de 350 rótulos. A comida, de apresentação moderna, é saborosíssima e servida em porções generosas que se pode facilmente dividir. Lá, me foram apresentados dois rótulos de vinhos mineiros, sendo um espumante produzido pelo método tradicional (Champenoise) e um tinto da uva Syrah, ambos de excelente qualidade, do produtor Luiz Porto, da pequena Cordislândia. Dois vinhos surpreendentemente bons.
 
No dia seguinte, a chuva deu uma breve trégua e se abriram boas nesgas de céu, o sol saiu um pouco e caminhei pelas ruas, fotografando praças, casarios, vielas e os visuais bucólicos da cidade. No alto, visitei a belíssima Igreja Matriz de Santo Antônio, a mais antiga igreja de Tiradentes e um expoente da arquitetura e arte barroca e rococó. Infelizmente, não são permitidas fotografias em seu interior.
 
À tarde, um almoço tardio em um restaurante muito interessante, o Uai Thai, que pratica um culinária que funde de forma magistral as cozinhas mineira e tailandesa, sob a batuta do chef Ricardo Martins, aficionado pela culinária tailandesa.
 
De lá, seguimos novamente a São João Del Rey, onde visitei o Ateliê dos Salgados da Conceição, e me excedi nos deliciosos salgados produzidos com massa de angu (fubá) e com recheios criativos, como couve com bacon e frango com quiabo. O pequeno ateliê produz, diariamente, mais de 2.00 salgados, distribuídos a estabelecimentos na cidade e em cidades vizinhas. Lá, eu conheci um quitute tipicamente mineiro, o cigarrete, um salgadinho simples e muito tradicional de festas na região, que consiste em uma massinha frita recheada de queijo branco.
 
Mesmo depois de tantos salgados, restava ainda um compromisso, que cumpri heroicamente: um jantar no festejado Angatu, outro excelente restaurante de Tiradentes. Lá, provei uma sequência de pratos deliciosos da cozinha contemporânea e delicada do chef Rodolfo Mayer, natural de Juiz de Fora.
 
Deixei Tiradentes no dia seguinte, com aquela sensação de que deveria ter ficado mais dias e explorado melhor seus tantos atrativos, mesmo correndo o risco de voltar pra casa com uns quilos extras. E assim deixei a cidade carregando uma mala com poucos pertences e uma quantidade considerável de queijos, doces, quitutes e cachaças.
 
Dicas By Yourself
 
QUEM LEVA
 
Escapadas Online – A agência tem seu foco em viagens e experiências autenticamente rurais e com forte pegada ecológica.
 
Em Tiradentes – a agência local Uai Trip recebe turistas e os leva para passeios de bicicleta, caminhadas e visitas de cunho cultural e gastronômico em Tiradentes e cidades vizinhas.
 
ONDE FICAR
 
Resort Santíssimo – Amplo e confortável, tem um excelente e variado café da manhã mineiro, um hotel perfeito para viagens familiares e para a distração dos pequenos.
 
ONDE COMER
 
Angatu
 
Tragaluz
 
Uai Thai
 
SUGESTÕES
 
• Café Monffort – Cafés especiais da região, bolo fresquinho e docinhos
 
• Ateliê de Salgados da Conceição (São João Del Rey)
 
• Catauá – Doce de Leite do Bolota
 
 
Paladar 
 

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