Mulher
21/03/2019 - 01h31

Mulher aborta. E ponto


Por dia, no Brasil, 1.550 gestantes abortam ilegalmente. Mulheres e médicos contam como é feito esse aborto
 
 
Mulheres engravidam. Mulheres viram mães. Mulheres abortam.
 
A terceira frase da sentença acima é tão verdadeira quanto as duas outras. Você pode não gostar, mas não adianta reclamar para o bispo. Nem para o Papa: uma em cada cinco mulheres de até 40 anos no Brasil já abortou.
 
O dado é da Pesquisa Nacional do Aborto de 2016, realizada pela Anis, Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. A ONG foi uma das especialistas nomeadas pelo STF para ser ouvida na arguição que discutiu, em 2012, a inclusão do aborto legal em casos de fetos anencéfalos; a possibilidade terminou virando lei.
 
Esta reportagem não pretende defender a interrupção da gravidez nos casos ilegais e nem criticá-la. Vamos mostrar como as mulheres abortam. As que têm dinheiro, em clínicas, e as que não, em qualquer outro lugar. A repórter desta matéria se passou por grávida e esteve numa clínica. E também entrevistou mulheres que abortaram, médicos e "aborteiras", como são chamadas as mulheres que fazem o procedimento sem ter diploma.
 
Este é um documento vivo sobre a morte de fetos, mulheres e crianças. Sobre os números assustadores dos abortos ilegais -- um deles: o SUS gastou R$ 500 milhões com complicações de aborto ilegal nos últimos dez anos -- e com relatos pungentes; tais como o de Erica que, em vídeo, contou das dores lancinantes que sentiu ao abortar com remédios, na cama que dividia com o marido.
 
"Foi a maior dor que senti na vida. Mais intensa que a do parto. Cheguei a desmaiar", conta Erica. "Estou me separando de um marido violento e já tenho dois filhos. Sou a favor da vida, mas não acho que seja a hora de gerar uma agora. Tinha que ser feito."
 
Todo dia, cerca de 1.500 mulheres abortam de maneira ilegal no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, num dia, o SUS faz abortos legais em 4,5 mulheres. Para as fora da lei que podem pagar para um obstetra, a questão é (financeiramente) resolvida com algo entre R$ 5 mil e R$ 15 mil. E anestesia. Para as que não, sobram os banheiros, as camas e os colchões, muitas vezes, de um açougueiro. E a dor.
 
No Brasil, o aborto só é permitido em casos de estupro, se a gravidez oferecer risco à vida da mãe e quando o feto é anencefálico. A pena para mulheres que o praticam fora dessas condições chega a três anos de prisão.
 
Atenção à coragem e crueza do que diz à Universa o diretor do Núcleo de Violência Sexual do Pérola Byington, André Luiz Malavasi, principal hospital que realiza abortos legais no país: "A legislação sobre o aborto é antiga. A decisão de abortar deve ser da mulher e nem igreja ou estado devem interferir. A realidade é que se a mulher quiser abortar, ninguém vai impedir. Nem a lei. O que muda é que as ricas vivem e as pobres morrem".
 
Senhora(e)s política(o)s, mães, pais e sem-filhos: ninguém é a favor do aborto. Mas ninguém vai fazer com que eles parem de acontecer.
 
"Estou aqui, feito criminosa, sem poder mostrar o rosto"
 
Erica* tem dois filhos, 25 anos, um casamento em falência e uma demissão recente. Ela deu duas entrevistas à Universa, gravadas em vídeo. Na primeira, contou por que e como faria um aborto. Na segunda, descreveu como foi pôr fim à gravidez. E o que ela sentiu.

 
Os preparativos para um aborto numa clínica clandestina
 
 
Como é feito o aborto
 
 
O aborto, no maior hospital feminino do país, na voz de um corajoso médico
 
Hospital Pérola Byington, em São Paulo, faz 80% das interrupções de gravidez em casos de estupro no Brasil
 
O diretor do Núcleo de Abuso e Violência Sexual do hospital Pérola Byington, André Luiz Malavasi, é da opinião de que as mulheres deveriam ser amparadas pela estrutura de saúde pública se quisessem abortar. Hoje, só recebem essa autorização mulheres que foram estupradas, que correm risco de vida com a gravidez e as que gestam fetos anencéfalos.
 
Nesta entrevista, Malavasi também conta como são feitos os abortos no hospital, os casos que mais o marcaram e faz críticas ao Ministério da Saúde.
 
Qual é sua opinião sobre a legislação que envolve o aborto?
 
Ela é antiga. Quando uma mulher quer abortar, ninguém a impede, nem a lei. Só aborta com segurança quem tem dinheiro. As mulheres pobres ficam submetidas à égide da lei, fazem aborto clandestino, inserem objetos e, muitas vezes, morrem. Essa decisão deve ser da mulher e nem igreja nem Estado devem interferir. É uma questão de saúde pública. Segundo estatísticas, a cada cinco gestações, uma se transforma em aborto induzido. Eu arrisco dizer que esse número é maior.
 
Qual é o perfil das mulheres que fazem aborto no Pérola Byington?
 
Prefiro não dizer para não expor as pacientes. Mas 80% delas são pobres.
 
Quantas vítimas de estupro o hospital recebe por dia?
 
Entre 12 e 15 mulheres. Dessas, de duas a três estão grávidas e querem interromper a gravidez. Só em 2017, foram 500 interrupções por estupro. [Na cidade de São Paulo, o hospital que chega mais próximo desse número é a Maternidade Prof. Mario Degni. Segundo o Ministério da Saúde, ele fez oito interrupções no primeiro semestre do mesmo ano].
 
Quais foram os casos de violência que mais o marcaram?
 
Todos me marcam, mas assusta quando chegam casos de crianças de seis meses, de mulheres de 90 anos, em condições degradantes devido à violência sexual. Das vítimas de estupro que chegam ao Pérola, 50% são crianças. Já atendi meninas de 10 anos grávidas. Mais da metade dessas crianças foi estuprada por familiares ou conhecidos da família. No Brasil, uma mulher é vítima de violência sexual a cada minuto, segundo o Ministério Público Federal.
 
Para abortar no Pérola, a mulher precisa apresentar o Boletim de Ocorrência do estupro?
 
Não. Ela não precisa nem mesmo ter feito um. Na primeira consulta, ela é avaliada por uma equipe multidisciplinar, com médicos, assistentes sociais e psicólogos. Depois dessa avaliação, o procedimento é agendado e realizado.
 
Até que tempo de gravidez o aborto é feito?
 
Só realizamos aborto se o feto tiver até 20 semanas (cinco meses) ou pesar até 500 gramas. Esse é o padrão de segurança da OMS, porque, passado esse tempo, há risco de o bebê nascer vivo. Caso isso aconteça, ele vai para uma incubadora para se manter vivo. Por isso, eu recomendo que mulheres que sofreram abuso sexual, se perceberem que a menstruação está atrasada, façam um teste de gravidez e procurem um hospital público o mais rápido possível. No Pérola, metade dos casos é de grávidas de mais de 12 semanas (3 meses).
 
Como é feito o aborto?
 
Até 12 semanas, fazemos por AMIU (aspiração intrauterina, seja manual ou elétrica) ou por curetagem. Esses procedimentos são simples, demoram até 15 minutos, e a mulher tem alta no mesmo dia se não houver complicação. Depois desse tempo, ou se o feto já apresentar ossos, o aborto é induzido por Misoprostol (conhecido popularmente como Cytotec). Nesses casos, a mulher pode levar de um dia até uma semana para expelir o feto. Não usamos o Misoprostol em todos os casos porque, com ele, o processo dura mais tempo e as dores são maiores.
 
O Ministério da Saúde informa que "qualquer hospital público com obstetrícia pode fazer um aborto legal", no entanto, não divulga a lista desses hospitais. Por quê?
 
Todos os hospitais deveriam fazer, mas, na prática, só 85 fazem. Eles não divulgam a lista porque não podem assumir que a lei não é aplicada como deveria. Eu conheço apenas três hospitais que de fato fazem. Várias mulheres chegam aqui, de diversas regiões do Brasil, com encaminhamento vindo de outros hospitais. Isso significa que eles não fazem o procedimento.
 
"Desceu lisinho"
 
Depois de entrevistar mulheres que abortaram, decidi me passar por grávida e conhecer uma clínica clandestina
 
Marquei a consulta por telefone. Fui informada que ela custaria R$ 400, com direito a retorno, e que não aceitavam convênio. Por questão de segurança, não contarei em que estado fica a clínica e nem se fui atendida por médico ou médica. Tratarei o especialista pelo gênero masculino.
 
Na sala dele, havia desenhos de criança e fotos de família. O médico apertou minha mão, depois, a da colega que fora comigo, e falou: "Já sei quem é a paciente, só pela mão gelada". Minha ansiedade serviu para algo.
 
"Diga, Talyta, o que você precisa?". Eu disse que estava grávida e queria tirar. "É uma gravidez indesejada, fora de hora, certo? Qual a data da sua última menstruação?", ele perguntou. "Não sei, mas está atrasada 15 dias". O médico concluiu: "Então, você está grávida de um mês". Disse que faria um exame de toque para confirmar o tempo, e depois, responderia às minhas dúvidas.
 
Pegou o telefone, disse "toque" e desligou. Logo chegou uma assistente, trazendo luvas e lubrificante. "Traz um teste de urina também", pediu, e me disse. "Os de urina são mais seguros que os de sangue hoje". Fui ao banheiro para coletar a urina e demorei bastante para que minha colega perguntasse tudo o que eu não poderia mais perguntar quando ele descobrisse minha não gravidez.
 
O médico disse a ela que meu aborto seria feito em "cinco minutos, 'galinhando'". Minha amiga perguntou se teria anestesia geral. "Tá louca? É a mesma sedação da endoscopia, só que um terço dela". Gestações de até três meses e meio não passam de 20 minutos e a sedação é mais alta. Também atendo até cinco meses, se o caso é de má-formação. A lei não permite esse aborto, mas e se a mulher não quer ter um filho sem o braço?".
 
Saí do banheiro, entreguei o pote para assistente e ela o levou para fazer o teste de farmácia. Deitei na maca ginecológica e o médico me acalmou: "É um toque delicadíssimo, não se preocupe". Feito o exame, ele disse: "É, você está grávida de muito pouco tempo". Ele então saiu da sala para pegar o resultado da urina.
 
Ao voltar, seu semblante estava sério; arrisco dizer, um pouco bravo. Ele ficou na porta, de pé. "Acho que você não está grávida. Faça um exame de sangue, aqui está o pedido, e se der positivo, volte sem marcar consulta". Já abrindo a porta, nos estendeu a mão e pediu que a atendente anunciasse a próxima paciente.
 
Não voltei, claro, mas a publicitária Ariane*, de 24 anos, sim. Ela estava grávida de dois meses. No retorno, entregou o dinheiro, num envelope, na mão do médico; que garantiu: "Princesa, logo você vai estar boa e livre".
 
Ela foi encaminhada para uma sala, que tinha aparelhos cirúrgicos. "Meu coração disparou e comecei a chorar. O médico então me deu a mão e disse: 'Agora você vai dormir. Não vai doer'".
 
"Acordei grogue e sem dor", diz a jornalista Janaína*, de 44 anos, depois de abortar. Uma enfermeira a levou para uma sala pequena, que estava com luz baixa, e deitou em uma poltrona reclinável de couro.
 
"Só sentia um incômodo no abdômen. Fiquei nessa sala por duas horas. O médico foi me ver e falou: 'Deu tudo certo. Desceu lisinho'". Janaína saiu do hospital; sim, seu aborto foi feito em um hospital, com analgésicos e a recomendação de procurar o médico em caso de dor ou sangramento. Não foi preciso.
 
Janaína, hoje, é mãe de dois filhos. Ariane decidiu que não quer ser mãe. Eu quero. Tenho 24 anos e o projeto é engravidar daqui a alguns anos. Se ficasse grávida agora, não descartaria a hipótese de abortar.
 
*As entrevistadas tiveram os nomes trocados
 
 
Há certeza. Mas há dor e arrependimento também
 
"Tive medo de ter outro filho com má-formação"
 
"Entreguei R$ 2,5 mil para o médico, num envelope, assim que entrei na sala em que faria o aborto. Eu já era mãe de uma menina com má-formação no coração e as chances do bebê nascer com o mesmo problema eram grandes, disse meu obstetra, quando eu lhe contei da gravidez. Deitei na maca, ofegante, e o médico entrou. Me deu uma sedação na veia, disse que não ia doer e que, em 15 minutos, tudo estaria 'resolvido'. Dormi rápido e acordei com meu marido ao lado. Não vi mais o médico. Quando a sedação passou, me bateu uma angústia, mas ela passou quando imaginei que o bebê podia morrer nos meus braços. Eu estava com quase três meses e, segundo o médico, o procedimento poderia apresentar risco se eu o adiasse. Vocês estão decididos? Se sim, vamos logo com isso", ele dissera na primeira consulta. Estávamos. Foi a decisão que nos coube e não nos arrependemos. Depois, engravidei de um menino que, os testes mostraram, era saudável. E assim ele nasceu". Clarice*, 43 anos, arquiteta, que abortou há 10 anos.
 
"Me senti culpada. Foi o pior dia da minha vida"
 
"Derrubei os comprimidos, de tanto que tremia, na hora de colocá-los na vagina. Eu tinha 20 anos e consegui o remédio com um traficante de drogas. Comecei a sentir dor duas horas depois. Passei a madrugada suando frio, com as mãos dormentes e, no dia seguinte, sangrei muito. Tive até que ser internada, mas deu tudo certo no final. Três anos depois, engravidei e decidi abortar mais uma vez. Meu novo namorado conseguiu o remédio por R$ 400. Forrou o colchão da cama dele e eu inseri os comprimidos. A madrugada passou e nada aconteceu. Pela manhã, fui a um hospital. A médica viu o remédio dentro de mim e, para me ajudar, falsificou o ultrassom, dizendo que meu bebê não tinha batimentos cardíacos. Ela induziu meu aborto com mais comprimidos. Enquanto esperava a curetagem, uma mulher comemorava que havia ouvido os batimentos do bebê pela primeira vez. Desabei de chorar. Foi o pior dia da minha vida, me senti culpada. Aquela mulher podia ser eu". Jéssica*, 31 anos, garçonete, que abortou há 11 e oito anos.
 
 
 
Universa
 

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