Educação
01/04/2019 - 04h02

Líder do Mackenzie: protesto vai se espalhar!


Podcast com Rarikan: até estudante do PSDB protestou contra Bolsonaro
 
PHA: Eu converso com Rarikan Araújo, diretor do Centro Acadêmico João Mendes Jr., da faculdade de Direito do Mackenzie. Rarikan, como vocês montaram a manifestação ontem, contra o presidente Jair Bolsonaro?
 
Rarikan: Estava programada uma reunião das entidades do Mackenzie pra construir uma passeata, uma mobilização convocada pela UNE e pela UBES, que era a Jornada de Lutas da Juventude. E aí, no meio desse processo que a gente estava construindo na Universidade, vimos pelo Twitter do Bolsonaro a visita dele no Mackenzie.
 
A partir disso nós convocamos todos os CAs, todos os coletivos que existem na Universidade, Diretório Central dos Estudantes e organizamos uma plenária dentro do Mackenzie dessas entidades, onde a gente deliberou de, durante todo o dia - como a gente não tinha notícias de qual seria o horário em que ele estaria no Mackenzie -, de organizar uma vigília.
 
Então, nós convocamos a mobilização nas redes sociais, fizemos um abaixo-assinado que colheu mais de mil assinaturas dos estudantes do Mackenzie, assinado pelos Centros Acadêmicos, pelos coletivos, pelo DCE, e marcamos o ato.
 
A galera pró-Bolsonaro também marcou seu ato, mas teve pouca aderência dentro da Universidade.
 
Desde o ano passado, nas eleições, o Mackenzie já teve grandes mobilizações contra o Bolsonaro. Realizamos, inclusive, um ato no ano passado - estudantes do Mackenzie junto com estudantes da USP - em memória dos 50 anos da Batalha da Maria Antônia, contra a volta da ditadura militar... Esse rescaldo da mobilização resultou no nosso ato ontem.
 
PHA: Quando foi a reunião em que vocês deliberaram fazer o ato especificamente contra o Bolsonaro?
 
Rarikan: Foi na quarta-feira da semana passada.
 
PHA: E quando foi que vocês obtiveram o apoio de todos os diretórios da Mackenzie?
 
Rarikan: Então, na própria reunião, os Centros Acadêmicos já se posicionaram que eram favoráveis à realização do ato. Aí nós construímos uma carta puxada pelo DCE, que é o Diretório Central dos Estudantes, que representa todos os cursos... E com essa carta a gente resolveu construir uma carta de reivindicações e de por que nós éramos contra a visita dele no Mackenzie.
 
PHA: E por que vocês são contra a visita dele ao Mackenzie?
 
Rarikan: Porque o Bolsonaro, desde antes de assumir a presidência, enquanto candidato, ele já atacava a educação brasileira. Atacava os centros acadêmicos... A própria política, no ano passado, de defesa do congelamento de investimentos na educação. A proposta da CPI da educação que, na nossa opinião, é uma medida para poder atacar o ProUni, atacar medidas que foram importantes pra nós...
 
Foram várias. Então, na nossa avaliação, não dava pra gente receber, na nossa universidade, um Presidente da República que defendia a Ditadura Militar, que dizia que os centros acadêmicos são ninhos de ratos e que a universidade não é para todos. O Mackenzie, hoje, ela é uma universidade onde centenas de estudantes são bolsistas - fruto do ProUni e das bolsas filantrópicas que a universidade tem. Então, isso é muito importante para mudar, para essa nova cara que o Mackenzie tem. O Mackenzie era uma das universidades mais...
 
PHA: Pois é, isso que eu gostaria, Rarikan... Eu gostaria que você desse uma dimensão de como o Mackenzie deixou de ser uma escola de elite. Por quê? O que aconteceu aí?
 
Rarikan: O Mackenzie, tradicionalmente, é uma universidade da elite paulistana, da elite brasileira. Fruto dos programas de acesso à universidade, iniciados pelos Governos Lula e Dilma, como o ProUni, o FIES... As próprias bolsas filantrópicas que a universidade disponibiliza... Isso mudou o caráter do Mackenzie.
 
No Mackenzie, você não via estudantes negros. Hoje, já tem uma série. Não tem muitos, mas já tem uma quantidade,  sim, de estudantes negros na universidade. Não existiam filhos da classe trabalhadora na universidade, que hoje só estão lá graças ao ProUni, graças ao FIES.
 
PHA: Como é que você entrou para a Faculdade de Direito?
 
Rarikan: Eu sou prounista.
 
PHA: Que idade você tem?
 
Rarikan: Vinte e sete.
 
PHA: Em que ano você está?
 
Rarikan: Estou no sexto semestre. Minha mãe é cabeleireira.
 
PHA: Sua mãe é cabeleireira?
 
Rarikan: Isso.
 
PHA: Você acredita que esse movimento do Mackenzie tem capilaridade? Ou ele é específico do Mackenzie? Outras faculdades e outras universidades vão se envolver em atividades como essa, contra o Bolsonaro?
 
Rarikan: Eu acho que tem muita capilaridade, porque na verdade, ano passado, nas eleições, as universidades já foram resistência à sua eleição, né... No ano passado, não só o Mackenzie, como centenas de universidades pelo Brasil organizaram mobilizações contra a eleição do Bolsonaro.
 
Então, na nossa avaliação, inclusive, o que o Mackenzie realizou ontem é algo que inspira também as outras universidades a se mobilizar e se levantar. Nós recebemos mensagens nas redes sociais do Mackenzie e das entidades de diversos estudantes, de várias universidades do Brasil, dizendo: "vocês nos inspiram, se o Bolsonaro vier à nossa universidade nós não vamos deixar ele entrar aqui também!"
 
Nós também recebemos muitas ameaças de apoiadores do Bolsonaro, ameaçando o DCE, ameaçando os CAs, ameaçando os alunos. Mas isso não nos intimida, porque o que nós fizemos ontem, na nossa avaliação, entra para a história: não deixar o Bolsonaro visitar nossa universidade.
 
PHA: Você teria condições de dar uma ideia, um percentual, de alunos do Mackenzie que sejam prounistas?
 
Rarikan: Não, eu não sei. Mas, se não me engano, é um a cada dez. É a proporção do MEC.
 
PHA: Você é ligado à UJS, que, por sua vez, é ligada ao PCdoB. Havia outros estudantes ligados e filiados a outros partidos na manifestação de ontem?
 
Rarikan: Sim. A grande maioria era de estudantes independentes. Eu faço parte da diretoria do CA, mas grande parte dos estudantes eram independentes, se mobilizam dentro da universidade. Mas tinham estudantes do PT, tinham estudantes, inclusive, do PSDB que estavam participando do ato, ontem.
 
PHA: Do PSDB?
 
Rarikan: Do PSDB aqui de São Paulo! Estavam participando do ato ontem. A galera do PSOL, tinha uma galera do PCB... Então, tinha tudo. Era bem plural. Para você ter ideia, até o próprio PSDB do Mackenzie estava participando do ato, ontem, contra a visita do Bolsonaro.
 
PHA: Como é que os bolsonários não conseguiram impedir vocês de fazer isso?
 
Rarikan: Na verdade, desde o ano passado, eles já não conseguem se mobilizar muito dentro da universidade. Eles tentaram, nas eleições, fazer mobilizações a favor do Bolsonaro lá dentro, mas não conseguiram.
 
Existe hoje um clima na universidade anti-Bolsonaro muito grande. No que a galera que apoia o Bolsonaro acaba sendo intimidada, acaba não conseguindo se manifestar. Ontem, por exemplo, tentaram criar um ato na porta do Mackenzie, convocado por estudantes do Mackenzie, a favor do Bolsonaro. Mas não tinham nem dez estudantes do Mackenzie lá. Tinham várias pessoas de idade, que não são estudantes, que não têm nada a ver com o Mackenzie, que foram pra lá. Agora, estudantes de verdade não tinham nem dez que foram lá pra porta defender o Bolsonaro.
 
PHA: Eu estou ouvindo um barulho aí ao fundo, de uma manifestação. O que que está acontecendo?
 
Rarikan: Hoje está acontecendo uma marcha, convocada pela UNE e pela UBES, pelas entidades daqui do estado de São Paulo, UMES e UEE, em defesa da Democracia nas escolas, pela paz e contra lei da mordaça.
 
PHA: Onde vocês estão?
 
Rarikan: Estamos descendo a Augusta, agora!
 
 
Conversa Afiada / Paulo Henrique Amorim
 

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