Polícia
08/04/2019 - 00h49

A outra história do tiroteio de Guararema


Saiba por que 50 homens da PM estavam à espera dos assaltantes na cidade paulista, em ação que resultou em 11 mortes
 
Guararema é uma ilha de tranquilidade. Uma cidade tão pacata que em 2016 e 2017 não ocorreu nenhum homicídio no município. O problema é que nada dura para sempre. Nem a tranquilidade da cidade localizada a 80 quilômetros de São Paulo (SP). A quietude local foi atropelada ontem (4) por um episódio que vai entrar para a história local. Durante a madrugada, uma quadrilha com cerca de 25 membros explodiu os caixas eletrônicos dois bancos. Logo em seguida chegaram policiais militares da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) e do COE (Comandos e Operações Especiais). Então, teve-se início um tiroteio no qual 11 criminosos foram mortos, quatro presos e uns poucos fugiram.
 
Segundo a versão oficial, há mais de seis meses o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Sorocaba (SP) estaria monitorando a quadrilha. E os promotores do Ministério Público paulista sabiam que eles praticariam um grande crime na região, mas não tinham ideia exatamente de onde e quando. Por causa disso, teriam avisado a Polícia Militar, que destacou equipes da Rota e do COE para a região. Os policiais só teriam ido ao local do crime após escutar o barulho das explosões dos caixas eletrônicos.
 
No entanto, há uma parte da história não contada. Segundo fontes da área de segurança, além das escutas, haveria um ou mais informantes infiltrados na gangue. Foram eles que teriam avisado sobre o crime — bem como qual seria a rota de fuga. Sabendo disso, a Polícia Militar armou uma emboscada; assustou os criminosos logo após as explosões e os direcionou para a armadilha. 
 
Esse fato explica a fuga de alguns — não se sabe ao certo quantos —, pois, entre eles, estariam os informantes. Há alguns anos, um antigo líder do PCC, já falecido, disse que quando morrem todos menos um durante um roubo, é porque o que conseguiu escapar era o informante. Outro ponto que corrobora essa versão é que dificilmente a Rota e o COE ficariam dias seguidos na região sem uma informação precisa sobre o roubo. A polícia sempre tem muito o que fazer. Não dá para deixar ninguém encostado, esperando, de tocaia. Eles passaram pouco tempo no local, no máximo alguns dias.
 
Entre a história oficial e a contada nos bastidores da Polícia Militar, é certo que, como ocorreram pelo menos 11 mortes, haverá um inquérito para apurar os fatos. 
 
O que acontece agora? 
 
Não vai adiantar muito ouvir os ladrões sobreviventes. Na prática, eles não revelam quase nada por conta da Lei do Silêncio dos tribunais do crime, ou, então, por serem de segundo escalão. Normalmente só os líderes do roubo têm o quadro completo. E o depoimento de policiais, em casos de tiroteio, é padrão. Todos contam a mesma história — às vezes, com as mesmas palavras. O caminho para começar a destrinchar os acontecimentos passa pela verificação das escutas telefônicas. É necessário que o delegado encarregado do inquérito requisite as gravações dos grampos, que certamente foram utilizados.
 
O que parece certo é que o mesmo grupo já havia feito quatro ou cinco ataques a caixas eletrônicos em cidades do interior paulista, sendo que alguns dos suspeitos já teriam sido até presos. Portanto, o  modus operandi  da gangue era conhecido. E, quanto ao quadro geral, podemos dizer que a parte de inteligência criminal foi bem-feita, mas a operacional deixou a desejar. Onze mortos não retratam um resultado razoável para uma ação em que a polícia sabia exatamente o que os criminosos fariam.
 
Outra coisa que deve estar no radar da polícia é que, em algumas vezes, casos com muitas mortes e grande repercussão provocam reações do mundo do crime. Por isso, mais importante do que nunca, os órgãos de informações devem ficar alertas pelos próximos dias para evitar qualquer surpresa.
 
 
Época / Guaracy Mingardi é ex-investigador da Polícia Civil de São Paulo, especialista em Segurança Pública, mestre pela Unicamp e doutor pela USP em ciência política. Mingardi desenvolve trabalhos sobre investigação policial como pesquisador da faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas e assessorou a Comissão Nacional da Verdade
 

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