Saúde
29/04/2019 - 13h54

As amputações e a realidade do câncer peniano no Brasil


Bolsonaro disse que chegam a 1.000 casos por ano no país por falta de água e sabão; na verdade, número pode ser bem maior
 
O presidente Jair Bolsonaro está preocupado com o número de amputações de pênis no país por falta de água e sabão. Segundo ele, os casos chegam a 1.000 por ano. “Quando se chega em um ponto desse, a gente vê que nós estamos realmente no fundo do poço”, afirmou. O discurso se baseia em dados da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), publicados pela revista Galileu no fim de 2017. No ano passado, Bolsonaro já havia citado a estatística em entrevista à ÉPOCA, comparando os cuidados masculinos aos femininos, no final de 2018. “Nós, homens, somos relaxados. Mulher não. Tá sempre se limpando. Nós, homens, jogamos uma cerveja no piu-piu e tá limpo. Isso é o que o povo faz”, disse, lembrando que a prática é comum no “fronteirão” do Brasil.  
 
Agora, mais comedido nas palavras, o presidente alertou para a educação sobre a higiene do órgão. “Nós temos que buscar uma maneira de sair do fundo do poço ajudando essas pessoas, conscientizando-as, mostrando realmente o que eles têm que fazer e evitar que se chegue nesse ponto ridículo, triste para nós, dessa quantidade de amputações que nós temos por ano”, declarou em tom mais leve. 
 
De acordo com o coordenador de câncer de pênis e testículo da SBU, José de Ribamar Calixto, no entanto, o número mencionado por Bolsonaro está equivocado. “É muito maior. Esse dado está defasado, foi levantado há cerca de 13 ou 14 anos, a partir da base do Datasus sobre internações diagnosticadas como câncer de pênis, que só leva em conta hospitais públicos”, revelou o médico, afirmando que os números podem ser comparados aos de locais menos desenvolvidos, como África e México. “São quase semelhantes”, emenda. 
 
A situação se agrava em locais periféricos de condição socioeconômica baixa, como as regiões Norte e Nordeste. O quadro mais alarmante é o Maranhão, onde há a maior incidência de casos de câncer de pênis no mundo, segundo pesquisa feita pela UFMA. O artigo “Penile cancer in Maranhão, Northeast Brazil: the highest incidence globally?”, publicado na revista internacional BMC Urology, concluiu que a doença acomete mais os jovens de baixa renda, incapazes de buscar tratamento e acompanhamento adequado. A demora em procurar especialistas, de acordo com a pesquisa, em torno de 2,4 anos após o início dos sintomas, provoca alto índice de óbito. “Também há abordagens psicológicas que mostram o quanto sofrem as pessoas que amputam. É muito triste”, lamentou Calixto.
 
O debate escasso sobre o câncer de pênis, se comparado a outros, como câncer de próstata e de mama, está relacionado ao alcance nacional. “O câncer de pênis é mais regionalizado, então se fala pouco”, pontua o coordenador da SBU, expondo o contraste de realidades no Brasil. “O Maranhão é líder mundial em casos por 100 mil habitantes. São cerca de 8 a 10 amputações por mês. Em Santa Catarina, por exemplo, a média é de uma a cada quatro meses”. 
 
Para ele, é fundamental uma política pública de prevenção e educar os homens. “Primeiro, tomar conhecimento da doença. Depois, como fazer a higiene ideal. Ter acesso mais fácil a um urologista para tirar dúvidas sobre herpes, verrugas, câncer e doenças sexualmente transmissíveis [DSTs]. É uma abordagem multifatorial”, disse, fazendo um apelo ao governo. “Tem de ser mais contundente em política pública, propor ao ministro algum enfrentamento. É preciso educar sobretudo crianças e jovens.”
 
 
Época
 

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