Entrevistas
19/08/2019 - 03h41

Para produtor de Woodstock, mundo regrediu desde 1969




O lacônico e tranquilo Michael Lang, o produtor por trás do Festival de Woodstock, que completa 50 anos, vê o mundo regredir desde a utopia daquela época. O governo do presidente Donald Trump lembra o de Richard Nixon (1913-1994), e a luta pelos direitos dos negros e das mulheres e pelo meio ambiente, segue tão presente quanto naquele tempo.
 
Em entrevista ao Valor, ele fala das dificuldades - a vila de Bethel se voltou contra eles quase que imediatamente - e também das conquistas daqueles quatro dias em agosto de 1969 que tanto marcaram a história mundial. Para ele, Woodstock foi a última tentativa de sua geração para criar um mundo melhor.
 
Lang reconhece as figuras anônimas que batalharam para realizar Woodstock - Chip Monck, o mestre de cerimônias famoso por avisar às pessoas para evitarem o "LSD marrom" circulando, ou John Roberts, o milionário que financiou o festival em parceria com o executivo de gravadora Joel Rosenman - e ressalta o espírito de irmandade que permeou o evento original e o tornou lendário. Lang não planeja assistir a nenhum show neste fim de semana do aniversário, mas rememorar com os veteranos de 1969. 
 
Hoje com 74 anos, Lang viu as mesmas dificuldades de 1969 se repetirem em 2019, quando não conseguiu espaço para o festival que planejava realizar em parceria com a multinacional Dentsu Aegis. Orçada em US$ 49 milhões, a empreitada fracassou em meio a uma briga judicial. Embora admita um certo ressentimento com a Dentsu, Lang afirma que continua pensando em realizar um novo festival, talvez ano que vem.
 
"Só queríamos fazer algo que homenageasse o original e inspirasse as pessoas a se tornar ativistas e lutar contra o aquecimento global e votarem, que é o mais importante."  
 
Ele não quis fazer uma parceria para os 50 anos com o Bethel Woods Center for the Arts, que administra o local do festival original, porque sua capacidade era muito pequena para o que planejava. No fim, a almejada capacidade para 200 mil pode ter sido um dos principais elementos que derrotaram seus planos.
 
Os advogados da Dentsu apontaram a insistência em fazer um grande evento como um dos motivos de discordância entre os sócios, bem como os frequentes estouros orçamentários. Mesmo assim, Lang conseguiu que justiça impedisse a Dentsu de cancelar o evento unilateralmente. Mas foi tarde demais. No mundo dos festivais musicais de 2019, que Woodstock ajudou a criar, não mais é possível improvisar. 
 
Valor: Como têm sido para você os 50 anos de Woodstock? Como você se sente? 
 
Michael Lang: Velho (risos). Na verdade, tem sido maravilhoso. Há uma quantidade impressionante de interesse e elogios do mundo inteiro. Tem sido incrível. 
 
Valor: Esta entrevista está sendo realizada em 15 de agosto, o primeiro dia do festival em 1969. Quais os seus planos para os próximos dias?  
 
Lang: Acho que vou me reunir com Rona [Elliot] e [Bill] Hanley e mais alguns veteranos de Woodstock. Sabe como é, para celebrarmos juntos. Vamos ver um dos slides de Hanley e só ficar rememorando. 
 
Valor: Vocês se reúnem sempre?
 
Lang: Não com frequência. Alguns de nós, regularmente, e outros nem tanto, mas é meio que um momento especial para nós. 
 
Valor: Vocês imaginavam em 1969 que aquilo ia tomar a dimensão que tomou?
 
Lang: Não, a gente planejava receber umas 200 mil pessoas, era o nosso máximo. Já tínhamos vendido quase 200 mil ingressos nas duas semanas anteriores. Então, quando chegou a hora, a gente sabia que ia encher. 
 
Valor: E o impacto cultural que o festival alcançou? Ele se tornou algo importante e lembrado no mundo todo... 
 
Lang: Sim, acho que foi por causa do que aconteceu naquele fim de semana. Sabe como é, porque provavelmente foi a maior reunião pacífica de jovens da história. Então teve um impacto no mundo inteiro, nos EUA, no Canadá. Espero que todo mundo consiga viver num mundo assim, com mais compaixão, positividade e apoio mútuo. 
 
Valor: Você acha que seria possível fazer algo parecido hoje em dia? 
 
Lang: Não algo como aquilo, mas acho que dá para fazer outra coisa. O que fizemos na época na verdade girava em torno das mesmas questões. Então você precisa lembrar as pessoas daquilo, e criar engajamento em torno das mesmas questões que enfrentávamos, mas agora. 
 
Valor: Quais as memórias daqueles quatro dias que mais vêm à tona para você hoje em dia? 
 
Lang: Bom, há tantas. Nenhuma em especial. Foram quatro dias de felicidade, mas também de problemas. Simplesmente foi lidar com os problemas, garantir que tudo continuasse acontecendo, cuidar das pessoas e incentivá-las a cuidar umas das outras. Havia um sentimento especial no ar, na comunidade que se reuniu, é um sentimento que nunca esquecerei. 
 
Valor: Como foi o papel inovador de Hanley e como ele foi importante para o mundo dos festivais de rock? 
 
Lang: Quando estava organizando o festival, eu procurava alguém que pudesse criar um sistema de som capaz de entreter 200 mil pessoas. Só pensei em duas pessoas. Uma era Bill, porque ele estava inovando em outros shows ao ar livre, e o outro era Albert Stanley, o engenheiro de som do Grateful Dead. E a questão com Albert é que simplesmente era o maior fabricante de LSD da América [risos]. Então eu escolhi Bill, e ele criou um sistema incrivelmente simples, mas eficiente. Foi sorte termos a tigela [topografia peculiar do local] porque funcionou como uma corneta e realmente amplificou o que saía das caixas de som. Bill foi muito inovador, ele realmente estava à frente do seu tempo. 
 
Valor: E Max Yasgur, o fazendeiro que alugou o terreno de Woodstock? Ele era um eleitor do Partido Republicano, conservador, e mesmo assim ajudou vocês a fazer o show... 
 
Lang: Max foi nosso salvador e herói. Começou como uma transação, e ele era um republicano a favor da lei e da ordem, mas também acreditava que "estamos lutando lá [no Vietnã] para proteger nossa liberdade aqui". Ele era a pessoa mais justa que já conheci. Ele defendeu a gente quando a cidade se voltou contra ele, e foi por isso que Woodstock pôde acontecer.
 
Valor: Quais as semelhanças que o senhor enxerga entre a turbulência política daquela época e a situação política agora com Donald Trump e a separação de famílias imigrantes? 
 
Lang: Acho que há muitas semelhanças entre o governo Trump nos últimos anos e o que acontecia nos EUA naquele tempo. Tínhamos acabado de passar pelo movimento dos direitos civis e dos direitos das mulheres, e as pessoas começavam a se conscientizar sobre o meio ambiente. O primeiro Dia da Terra foi um ano depois de Woodstock. Parece que hoje em dia regredimos de todo aquele progresso que conseguimos. Agora temos o Black Lives Matter e o movimento Me Too e os negacionistas da mudança climática. Hoje em dia estamos enfrentando vários problemas que achávamos que tínhamos enfrentado e resolvido. 
 
Valor: Houve muitos convites para você organizar outros festivais depois de Woodstock? 
 
Lang: Tive muito disso, mas eu não fiz [Woodstock] pela minha carreira. Eu só queria criar um evento e esperava que desse certo. Entenda, para nós era o fim do nosso sonho de melhorar o mundo, e aquilo foi a nossa última tentativa de lutar por aquilo. Depois muita gente entrou em contato comigo para fazer algum festival, mas não fui atrás porque não era minha intenção.
 
Valor: O senhor teria feito algo diferente em 1969? 
 
Lang: Em retrospecto, sim, gostaria de ter encontrado Max um mês antes. Mas do jeito que as coisas aconteceram e com base em outras experiências, não acho que mudaria nada. Acho que o equilíbrio entre intenções,espírito de comunidade, os talentos envolvidos e fazer parte de uma comunidade contracultural deu mais certo do que esperávamos. Foi muito realizador.
 
 
Valor Econômico
 

Comentários (0)


Fala Santos
E-mail: contato@falasantos.com.br
© 2010 Fala Santos. Todos os direitos reservados. site criado por