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14/10/2019 - 02h47

Irmã Dulce é canonizada como 1ª santa nascida no Brasil; conheça a história


Evento foi realizado no Vaticano. 3ª santificação mais rápida da história. Indicada ao Nobel da Paz, em 1988. Conhecida como ‘Anjo bom da Bahia’. Foi próxima de políticos e poderosos.
 
 
O papa Francisco canonizou neste domingo (12.out.2019) a baiana Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes (1914-1992), mais conhecida como Irmã Dulce. É 1ª santa nascida no Brasil. A cerimônia realizada na Praça de São Pedro, no Vaticano, e foi iniciada às 10h (5h10 no horário de Brasília).
 
Milhares de brasileiros participaram da cerimônia. A celebração contou com a presença do vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. Ao menos, outros 22 congressistas participam.
 
O canal no YouTube Vatican News – Português transmitiu a canonização. Assista abaixo (o momento da santificação começa a partir dos 22min35s):

 
Foram também canonizados na mesma cerimônia o britânico John Henry Newman (1801-1890), a italiana Giuseppina Vannini (1859 -1911), a indiana Mariam Thresia Chiramel Mankidiyan (1876 -1926) e a suíça Marguerite Bays (1876 -1926).
 
“Hoje, agradecemos ao Senhor pelos novos santos, que caminharam na fé e agora invocamos como intercessores. Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo”, disse o papa na homilia.
 
A beata passa a ser chamada de Santa Dulce dos Pobres. A Constituição Apostólica exige que a igreja considere comprovados 2 milagres para a santificação. A decisão é baseada em avaliação de peritos de saber científico (como médicos) e teólogos. O bispo local é o responsável por conduzir as investigações acerca da vida do candidato e procurar de evidências de suas virtudes. No caso de Dulce, foi a Arquidiocese de Salvador.
 
Depois da igreja considerar 1 milagre como comprovado, a pessoa passar a ser classificada como beata. A beatificação de Dulce foi em 22.mai.2011. A canonização em 13.mai.2019, depois de o colegiado de cardeais e bispos da Congregação para a Causa dos Santos, da Cúria Romana, atestar o 2º milagre. As graças atribuídas à ela, registradas em Pernambuco e Sergipe, foram:
 
1ª caso: o estancamento da hemorragia de uma moradora da cidade de Malhador, no interior de Sergipe, durante pós-parto. A religiosa já estava morta há 9 anos e 1 padre orou para a agora Santa. A igreja a beatificou em maio de 2011;
 
2º caso – a cura do músico e maestro José Maurício Bragança Moreira, que ficou cego por causa de 1 glaucoma. Ao sofrer de conjuntivite, colocou uma pequena imagem da Irmã Dulce sobre os olhos, pedindo a sua intercessão. Quando acordou, voltou a ver de novo.
 
“Eu fui paciente de glaucoma muito grave que me cegou durante 14 anos. No dia do milagre, 10 de dezembro de 2014, o meu coral ia cantar, mas a minha esposa nem me deixou sair de casa por causa do derrame que eu tive nos olhos devido a uma conjuntivite viral. Eu passei a noite sem conseguir dormir e por volta das 4h eu peguei a imagem de Irmã Dulce, que fica na cabeceira da minha cama, a coloquei nos meus olhos e pedi que ela aliviasse a minha dor”, afirmou o maestro, segundo a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
 
TRAJETÓRIA DE DULCE
 
Nascida em 26.mai.1914, filha de uma família de classe média alta, Dulce tornou-se freira no começo da década de 1930 pela Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em São Cristóvão (Sergipe).
 
Formada como professora, teve como 1ª missão ensinar a crianças em colégio de sua congregação em Salvador. A vocação para as causas sociais teve início naquela década quando passou a prestar assistência à comunidade pobre de Alagados e a participar da União Operária São Francisco.
 
Em 1937, fundou o Círculo Operário da Bahia, juntamente com Frei Hildebrando Kruthaup. Em 1939, inaugurou o Colégio Santo Antônio, escola comunitária voltada para operários e seus filhos.
 
Dez anos depois, ocupou 1 galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio de Salvador para acolher 70 doentes. Em 1959, instalou oficialmente as Obras Sociais Irmã Dulce (Osid).
 
No ano seguinte inaugurou o Albergue Santo Antônio. Atualmente, o local chama-se Hospital Santo Antônio e realiza 4,5 milhões de atendimentos gratuitos por ano.
 
NOBEL E RELAÇÃO COM POLÍTICOS
 
O nome de Irmã Dulce foi indicado para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, em 1988, pelo então presidente José Sarney. A religiosa não foi premiada, mas ganhou reconhecimento internacional.
 
O livro “Irmã Dulce, a santa dos pobres”, do jornalista Graciliano Rocha, conta que Dulce era tão próxima de Sarney que sabia o número do telefone que ele tinha no Palácio do Planalto. O contato só deveria ser usado em situações de emergência.
 
A religiosa foi próxima de outros políticos. Em 1979, recebeu visita do último presidente da ditadura militar, general João Figueiredo, que ajudou a financiar, por meio do Banco do Nordeste, a ampliação do Hospital Santo Antônio.
 
Dulce conseguiu a simpatia do senador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) e apoio de Norberto Odebrecht, fundador de uma das maiores empreiteiras do país.
 
Era também ligada a Ângelo Calmon de Sá, dono do Banco Econômico, que quebrou e foi liquidado extrajudicialmente em 1996. Calmon de Sá é conselheiro das Obras Sociais de Irmã Dulce. O ex-banqueiro, ministro da Indústria e comércio durante o governo Ernesto Geisel (1974-1979), é acusado de fraude no sistema financeiro e corre risco de prisão.
 
Apesar das relações, a religiosa, porém, negava entrar na área da política.
 
“Não entro na área da política, não tenho tempo para me inteirar das implicações partidárias. Meu partido é a pobreza. Só não gosto quando usam meu nome para angariar simpatias, porque isso prejudica meu trabalho”, dizia Irmã Dulce.
 
3ª MAIS RÁPIDA DA HISTÓRIA
 
O processo de canonização de Irmã Dulce foi o 3º mais rápido da Igreja Católica, apenas 27 anos depois de sua morte. Só perde para a santificação de Madre Tereza de Calcutá (19 anos depois da morte da albanesa) e do papa João Paulo 2º (9 anos depois da morte dele).
 
De acordo com levantamento feito pela Veja, Francisco é o papa que mais fez santos. Em 6 anos de pontificado, 898 pessoas foram canonizadas. O antecessor dele, Bento 16, santificou apenas 45. Eis abaixo:
 
 
A medida é resultado de uma série de reformas que a Igreja Católica vem fazendo nos últimos anos para diminuir a burocracia no processo de canonização. O movimento também é interpretado como uma forma de atrair mais fiéis. Durante a solenidade deste domingo (12.out.2019), o papa Francisco também canonizará outras 4 pessoas. Todas ficaram conhecidas por ter uma vida humilde, como Dulce. São:
 
John Henry Newman (1801-1880) – cardeal e fundador do Oratório de São Filipe Néri na Inglaterra;
 
Madre Josefina (1859-1911) – italiana, fundadora das Filhas de São Camilo;
 
Maria Teresa Chiramel Mankidiyan (1876-1926) – indiana, fundadora da Congregação das Irmãs da Sagrada Família;
 
Margherita Bays (1815-1879) – suíça, da Ordem Terceira de São Francisco de Assis.
 
O Brasil é a maior nação católica do mundo, com 123 milhões de seguidores. No entanto, o percentual está caindo a cada ano –perdendo adeptos para o segmento evangélico. Em 1970, mais de 90% dos brasileiros eram católicos. Segundo os últimos dados disponíveis pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, os praticantes do catolicismo representam 64% da população.
 
Os evangélicos foram o grupo religioso que mais cresceu no período. Representam hoje 22,2% dos brasileiros. A expansão das igrejas pentecostais, com forte presença nas periferias, é 1 dos fatores que impulsionou o número.
 
A Santa Sé está se movimentando. Neste mês está realizado 1 sínodo para debater a Amazônia. Além de discutir formas de preservação da floresta, os religiosos discutem como aumentar a presença da igreja no país.
 
POLÍTICOS ACOMPANHAM
 
Diversas autoridades brasileiras representam o país durante a cerimônia de canonização da Irmã Dulce. Os presidentes das duas casas do Congresso e o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, acompanhados de 1 grupo numeroso de deputados e senadores, estão em Roma para participar do evento.
 
Os políticos foram criticados nas redes sociais por realizarem a viagem com dinheiro público. O subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado pediu ao TCU (Tribunal de Contas da União) que apure os gastos.
 
Ao afirmar que não se pode exigir das autoridades e políticos apenas que “sejam honestos”, dizendo que também precisam parecer honestos, Furtado citou uma frase atribuída à Irmã Dulce: “É preciso ter certeza de estar fazendo a coisa certa”.
 
CERIMÔNIA EM SALVADOR
 
Na capital baiana, onde a freira viveu, a celebração da canonização terá cerimônia em 20 de outubro, a partir das 12h30, na Arena Fonte Nova. A expectativa é reunir 55.000 pessoas no ato, segundo organização Obras Sociais Irmã Dulce.
 
 
Poder 360
 

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