Polícia
06/11/2019 - 03h11

É o bicho: os bastidores da máfia brasileira


Como os barões da contravenção conquistaram dinheiro, poder e simpatia popular bancando futebol, samba e assistencialismo
 
 
Doutor Castor era como lhe chamavam os populares e demasiadamente gratos. Porém, o mais famoso, poderoso, informado e preparado líder da história da contravenção brasileira tinha nome, sobrenome e tradição no universo dos contraventores.
 
O jogo do bicho foi parte do pedigree e DNA do advogado carioca Castor Gonçalves de Andrade e Silva, o Castor de Andrade. Castor, capo di tutti capi, chefe de todos chefes, era da terceira geração de uma família de administradores da jogatina zoológica.
 
Figura ilustre no auge da interação da atividade com outros negócios e a ação de grupos como a Scuderie Le Cocq, que originou o Esquadrão da Morte carioca, morreu de infarto em 11 de abril de 1997, aos 71 anos.
 
 
Tudo começou quando a avó Dona Eurides, a IaIá, passou a mexer com a bicharada numerada no início do século 20, numa banca modesta na rua Fonseca, em Bangu.
 
A atividade vinha ganhando aos poucos as ruas do Rio de Janeiro, vencendo os muros do Jardim Zoológico – onde fora inventado em 1892 pelo Barão de Drummond, João Batista Vianna Drummond.
 
Até então, era tão-somente uma inocente ferramenta de marketing utilizada para turbinar a arrecadação destinada ao trato dos animais.
 
 
Quando vovó Iaiá se aposentou, o comando passou para Eusébio de Andrade, o Seu Zizinho, pai de Castor. Condutor de trem de profissão, viu oportunidade de empreender e transformou a atividade em negócio lucrativo, e com ela ficou rico.
 
Seu Zizinho expandiu a rede também a partir de Bangu, num período em que o bicho ainda estava longe da atividade criminosa e das acusações de manipulação de resultados, sequestros, associação ao tráfico, assassinatos e apoio a ações linha-dura do regime militar.
 
 
Castor Gonçalves de Andrade e Silva, nascido em berço esplêndido provido por Seu Zizinho, chegou ao mundo em 12 de fevereiro de 1926. Entre dribles constantes nos professores e familiares para nadar nas águas limpas da Praia do Flamengo, zona sul carioca, concluiu o curso de Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
 
Sua veia empreendedora o leva a acumular patrimônio como dono de metalúrgica, lojas comerciais e postos de gasolina. O salto para a gerência das bancas de Seu Zizinho acontece antes mesmo do diploma de advogado.
 
Era necessário suprir a ausência do pai, mais interessado, àquela altura, nas terras e no gado comprados com o dinheiro da contravenção
 
Sob seu controle, a brigada zoológica controlada pela família deixa o patamar de negócio lucrativo, estabelecido pelo pai, para se transformar num império.
 
Apesar de imprimir um ritmo voraz de expansão, Castor chegou a vetar a ligação do negócio com outras ações ilegais, sobretudo o tráfico de drogas.
 
Queria o jogo do bicho romanticamente só, mas anos depois, num momento em que as bancas sentiam o baque da forte concorrência gerada pelo arsenal de novas loterias oficiais, acabaria por render-se ao mercado sedutor das máquinas de caça-níqueis e videopôquer.
 
 
Doutor Castor foi o primeiro capo do bicho a perceber o quanto as ações comunitárias e participações sociais poderiam "legitimar" sua principal atividade.
 
No comando, reforçou o papel de mecenas no futebol do Bangu, clube do bairro-sede do império que, antes apoiado pelo pai e por ele na diretoria, conquistara pela segunda vez o Campeonato Carioca, em 1966.
 
Castor adotou também a principal escola de samba de Bangu, a Mocidade Independente de Padre Miguel. Fundou e foi o primeiro presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Liesa.
 
Por essa presença em quase tudo o que parecia seduzir as classes populares, Doutor Castor trafegou com desembaraço e paparicos pelos ambientes legais e formais dos poderes municipal, estadual e federal.
 
 
Era respeitado e tinha pedidos atendidos por políticos, empresários, figurões da Justiça e generais ligados ao poder.
 
Esquadrão Le Cocq
 
Esquadrão da morte, por definição, é um grupo paramilitar armado, formado por policiais, terroristas ou civis que executa ações extrajudiciais, ilegalidades, crimes e assassinatos, a mando de grupos políticos ou líderes da sociedade.
 
Na maior parte dos casos, são atividades realizadas sob sigilo, para evitar a revelação de identidades e punição dos agentes.
 
No Brasil, os esquadrões da morte começaram a pipocar em vários estados nos anos 1960. O mais notório – e cruel de todos – surgiu em 1965, no Rio de Janeiro do então Estado da Guanabara, a partir da Scuderie Le Cocq, ou  Esquadrão Le Cocq.
 
O núcleo duro da Scuderie Le Cocq era composto pelos chamados Doze Homens de Ouro da Polícia fluminense, um para cada signo do zodíaco.

 
Eram escolhidos a dedo pelo então secretário de Segurança do Rio, Luis França, para “promover uma faxina” tirando de cena ladrões de carros, de táxis e de casas, assassinos, assaltantes e afins.
 
Oficialmente, a Scuderie foi montada para promover a vingança do assassinato de Milton Le Cocq, primo do brigadeiro Eduardo Gomes e respeitado detetive que havia integrado a guarda pessoal de Getúlio Vargas.
 
Le Cocq foi abatido a tiros por Manoel Moreira, o Cara de Cavalo, bandido que comandava o esquema de proteção às bancas, banqueiros, funcionários e pontos do jogo do bicho na Favela do Esqueleto.
 
Cara de Cavalo caiu na rede da Scuderie poucos dias depois de matar Le Cocq. Foi o primieiro a ser fuzilado, com 52 tiros, pela turma que matava enquanto chupava pirulitos.
 
“O primeiro tiro era para matar, o segundo para
confirmar e o terceiro para fazer a festa”
Scuderia Le Cocq
 
Depois dele, vários ícones da bandidagem carioca da década de 1960 foram para o latão com centenas de comparsas.
 
A Scuderie tinha como presidente executivo Euclides Nascimento. E de honra o jornalista David Nasser, dos Diários Associados. Seu emblema trazia uma caveira sobre ossos cruzados; e o significado original das iniciais EM no brasão significava Esquadrão Motorizado, divisão da polícia carioca da qual Milton Le Cocq fazia parte.
 
Nada a ver com Esquadrão da Morte, mas essa informação era solenemente desprezada pelos populares e até mesmo por integrantes. A Le Cocq transformou-se em associação e, no auge, chegou a ter mais de sete mil seguidores, entre associados e admiradores.
 
Com o tempo e o aumento assustador dos índices de vaidade e de poder gerado pelo medo, seus integrantes assumiram projetos mais ambiciosos. E perigosos. Entre eles, as parcerias com líderes do jogo do bicho.
 
 
O mais notório desses líderes foi também o policial mais famoso de sua geração: Mariel Araújo Mariscot de Mattos, o Mariel Mariscot. Nascido em Niterói, por mais um desses caprichos do destino foi criado na mesma Bangu do megabanqueiro do bicho, Castor de Andrade.
 
Conhecido como Ringo de Copacabana, ou ainda MMM, foi limado da Scuderie na década de 1970.
 
Beija-Flor canta o bicho
 
Sonhar com filharada... é o coelhinho
Com gente teimosa, na cabeça dá burrinho
E com rapaz todo enfeitado
O resultado, pessoal... é pavão ou é veado
 
Avenida Presidente Vargas, centro do Rio de Janeiro, noite de 29 de fevereiro. Quinto domingo daquele mês, era o ano bissexto de 1976.
 
Com o divertido enredo Sonhar com Rei dá Leão, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor, de Nilópolis, colocou crianças, jovens e adultos para cantar o jogo do bicho sem meias palavras. Era a primeira homenagem cultural pública de grande dimensão à atividade contraventora e seu universo.
 
Surpreende jurados, jornalistas e público com um desfile encantador e fatura, com alguma folga, seu primeiro título na elite do principal desfile de carnaval do mundo.
 
 
Diz o ditado que em festa de inhambu jacu não entra. E vice-versa. Mas, para o espanto de muitos, a Beija-Flor resolveu desafiar, entrar e, além disso, levantar poeira de pontos sobre as gigantes do carnaval carioca.
 
Seis acima da Mangueira e Mocidade de Padre Miguel, 14 além da terceira colocada, a Portela, e 16 de distância do Salgueiro.
 
O maranhense João Clemente Jorge Trinta, o Joãosinho Trinta, carnavalesco deste e outros quatro dos treze títulos seguintes da Beija-Flor nos desfiles fluminenses, morto em dezembro de 2011 aos 78 anos, foi o maior gênio criador da história do carnaval.
 
“Oooooolha a Beija-Flor aí, geeeeeente”
Neguinho da Beija-Flor
 
Discípulo de outro mestre da folia, o diretor Fernando Pamplona, teve conquistas anteriores no Salgueiro, mas foi em Nilópolis que viu seu talento explodir e o transformar numa quase unanimidade.
 
Já o nilopolitano Luiz Antônio Feliciano Marcondes, agora Luiz Antônio Feliciano Neguinho da Beija-Flor Marcondes no registro, 70 anos, o puxador do samba, firmou-se como um dos grandes intérpretes da MPB nas últimas décadas. É a voz de sua escola, tendo à frente o indefectível grito de guerra “oooooolha a Beija-Flor aí, geeeeeente”.
 
E, fechando o trio, o carioca Aniz Abraão David, o Anísio, 82 anos, todo-poderoso do bicho em Nilópolis e nas cidades vizinhas Mesquita e Queimados, ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba, a Liesa, ex-presidente executivo e atual de honra da Beija-Flor.
 
A coesão e os benefícios mútuos, na dobradinha entre Anísio e sua escola, talvez seja a característica mais forte na parceria entre samba e futebol. Tanto é assim que o nome da escola virou o sobrenome informal do contraventor: Anísio da Beija-Flor.
 
 
Em Nilópolis, seu reino particular, ele manda no bicho enquanto sua família faz o mesmo na política e no restante da cidade. Não deixa faltar nada à escola e, em troca, recebe apoio e carinho popular para tocar as apostas sem restrições e inimigos significativos.
 
A conta do passado e das relações polêmicas acabou chegando em 1993, quando foi condenado pela juíza Denise Frossard com outros 13 banqueiros.
 
Delimitação pacífica
 
Capitão do Exército, o carioca Ailton Guimarães Jorge, 77 anos, foi o grande responsável, também ao lado de Castor de Andrade, pela criação ‘oficial’ da cúpula do bicho no Rio e do trabalho de ‘delimitação pacífica’ do território de cada um deles.
 
Presidiu a Unidos de Vila Isabel, escola do bairro onde instalou seus primeiros pontos do negócio, que cresceu e chegou a Niterói, capital do Estado do Rio antes da fusão com a Guanabara, e ao Espírito Santo.
 
Do outro lado da ponte, apadrinhou a escola Unidos de Viradouro. Foi também presidente da Liga das Escolas de Samba, a Liesa, de 1987 a 1993 e entre 2001 e 2007.
 
Dedicado sim, bagunceiro também
 
Filho de um guarda civil, estudou a Academia Militar das Agulhas Negras. Tinha fama de aluno dedicado sem, no entanto, abrir mão de uma bagunça. Sua trajetória é também marcada por acusações de participação em torturas durante o regime militar.
 
Tornou-se bicheiro após encostar a farda. Começou como gerente das bancas de Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas. Sete anos depois, entrou para o conselho de chefões e passou a delimitar áreas de ação para os pequenos donos de banca.
 
Guimarães também esteve preso em 2007, por conta da Operação Hurricane (Furacão), detonada pela Polícia Federal contra o esquema caça-níqueis, num período em que iniciava a passagem do bastão dos negócios para o filho Júnior.
 
Casos de família
 
Waldemir Garcia, o Miro, ex-presidente executivo e de honra da Acadêmicos do Salgueiro, foi outro general estrelado da cúpula do bicho carioca até sua morte, em 2004.
 
Anos antes, passou o controle dos negócios para o filho Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, também ex-presidente da escola do bairro da Tijuca, zona norte do Rio. Maninho era rápido no assédio às mulheres e tinha fama - justificadíssima - de violento. No Salgueiro, controlava tudo com rigor.
 
Na pendenga mais rumorosa em que se envolveu, o caso Carlos Gustavo Santos Pinto Moreira, o Grelha, em outubro de 1986, Maninho teve a ousadia de ameaçar de morte o ator Tarcísio Meira Filho. O Tarcisinho, filho dos atores Tarcísio Meira e Glória Menezes.
 
O motivo da ira seria um lance de olhares furtivos por algum dos amigos do ator para cima da esposa de Maninho – que morreu em 2004 e deixou seu império para o irmão Alcebíades Paes Garcia, o Bide.
 
Com Bide no comando, os conflitos no clã seguiram em disputas por bancas e jogos eletrônicos na zona sul, centro, bairros de Santa Cruz e Estácio e parte da Barra da Tijuca.
 
Do outro lado do conflito, Shanna Harouche Garcia Lopes, filha de Maninho. Ela teve o marido assassinado em 2011.
 
Outros personagens
 
Em outubro de 2019, Shanna viu a morte de perto no estacionamento de um shopping na Barra da Tijuca. Baleada no pulso e no tórax, conseguiu se recuperar. O irmão Mirinho, porém, não teve a mesma sorte e foi assassinado aos 27 anos, enquanto deixava uma academia de ginástica da Barra.
 
 
"Desconfio do meu ex-cunhado (Bernardo Bello). Briga de família”
Shanna Garcia
 
Outros poderosos chefões se destacaram na esteira da contravenção do jogo do bicho. Antônio Petrus Kalil, o Turcão, morreu com 93 anos e controlava operações lucrativas com caça-níqueis em municípios fluminenses. Seu irmão José Petrus Kalil, o Zinho, comandava a jogatina no centro do Rio.
 
O carioca Luiz Pacheco Drumond, o Luizinho Drumond, 79 anos, fez seu império de bicho na região da Leopoldina, zona norte do Rio. Por isso, virou patrono, presidente executivo e de honra da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, tricampeã do carnaval em 1999, 2000 e 2001, e presidente da Liesa de 1998 a 2001.
 

 
Helinho da Grande Rio é patrono da escola de samba Grande Rio, de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, sua área de atuação no bicho. Um episódio que o envolveu chamou a atenção em dezembro de 2011: a apreensão de R$ 3,9 milhões, 2.950 euros, um computador, um carro blindado e uma réplica de fuzil Ak-47 na casa de um de seus tios, Adilson Coutinho de Oliveira, na Barra da Tijuca.
 
O advogado Mário de Oliveira Tricano, 73 anos, conhecido popularmente apenas por Tricano, nascido em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, foi prefeito de Teresópolis, na serra fluminense, por cinco mandatos. É tido como líder do ramo do bicho na região, onde mantém vários negócios, entre eles um hotel e um haras.
 
O empresário Carlinhos Cachoeira tem negócios no jogo do bicho e na exploração de máquinas caça-níqueis no Distrito Federal e em parte de Goiás, Minas Gerais e de estados da região Nordeste. Herdou a atividade de seu pai, Tião Cachoeira, e ampliou as ações para muitos negócios legais.
 
Rei morto
 
No clã dos Andrade, a morte de Doutor Castor detonou uma feroz disputa pelo trono vazio. A decisão do capo de indicar o sobrinho Rogério de Andrade contrariou seu filho Paulo Roberto Andrade, o Paulinho. 
 
Declarada a guerra, o filho do poderoso morreu assassinado em 21 de outubro de 1998 na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Identificado como autor do crime, o ex-PM Jadir Simeone Duarte acusou o primo Rogério de ser o mandante – causando espanto num total de zero pessoas.

 
 
R7
 

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