Sindical
18/11/2019 - 04h23

100 anos de protestos


Estudo checa 100 anos de protestos em 150 países e revela influência da classe trabalhadora


 
Descobrimos que é muito mais provável a democratização seguir protesto de massa dominados pelas classes médias urbanas – e ainda mais quando trabalhadores industriais estão protestando. Esses grupos frequentemente combinam uma forte preferência pela democracia (especialmente em sociedades urbanizadas), com a capacidade de forçar até o fim mudanças democratizantes.
 
Muitos analistas temem que a democracia possa estar em risco – incluindo os Estados Unidos e alguns países europeus. Alguns comentaristas culpam as pessoas com menos escolaridade  pelos descaminhos da democracia.
 
De acordo com tal estereótipo, esses votantes tendem a ser céticos quanto a globalização econômica e imigração – e talvez mais inclinados a apoiar políticos e partidos populistas autoritários. Analistas políticos tendem a ver as mais educadas classes médias urbanas, em contraste, como convictos defensores dos valores e princípios democráticos.
 
Mas são os trabalhadores industriais realmente uma força antidemocrática? Em um novo estudo, em cerca de 150 países, nós examinamos sistematicamente como cidadãos têm procurado promover a democracia. Aqui está o que nós encontramos: trabalhadores industriais têm sido agentes chave da democratização e, muitas vezes, são até mais importantes do que as classes médias urbanas. Quando trabalhadores industriais mobilizam oposição de massa contra uma ditadura, é muito provável que a democratização venha a seguir.
 
Na história moderna, cidadãos de diferentes países têm organizado protestos de massa em busca de liberdades políticas e liberdades. Às vezes com sucesso. Os atuais protestos pela democracia em Hong Kong são o exemplo mais recente de mobilização de massa por direitos políticos e liberdade ao redor do mundo. Outros exemplos incluem as sufragistas no início do século XX, os movimentos anticomunistas na Europa Oriental 30 anos atrás e os protestos anti-regime no Oriente Médio e Norte da África, durante a Primavera Árabe.
 
Sim, como as divergentes trajetórias de diferentes países pós Primavera Árabe ilustram – compare a democracia tunisiana com a autocracia egípcia – mobilização popular nem sempre leva à democracia. Frequentemente os protestos nem levam à queda de uma existente ditadura, como no Irã, onde o regime incumbente sobreviveu ao Movimento Verde de 2009.
 
Porque alguns movimentos trazem a democratização, enquanto outros falham?
 
No nosso novo estudo, baseado na comparação de todos os principais movimentos de protestos anti-regime globalmente, de 1900 até hoje, descobrimos que quem está fazendo os protestos determina se eles vão impulsionar a democratização. Mais especificamente, depende da raíz dos protestadores.
 
Movimentos de protesto atraem uma mistura de pessoas. Considere, por exemplo, os movimentos tunisianos e egípcios da Primavera Árabe. Em 2015, o Prêmio Nobel da Paz foi concedido para o Quarteto de Diálogo Nacional da Tunísia, por ajudar uma transição democrática pacífica no país. Essa organização representou uma ampla coalizão de classes, incluindo trabalhadores organizados. No Egito, o movimento pró-democracia da Primavera Árabe tinha uma base social mais estreita, esboçada primariamente de profissionais de classe média urbana.
 
Oito anos depois da revolução do Egito, aqui está o que nós aprendemos sobre mídias sociais e protestos.
 
O século XX também experimentou vários movimentos de protestos e revoltas dominados quase que inteiramente por camponeses. De acordo com nossos dados, esses protestos liderados por camponeses raramente levaram a reformas democráticas. Isso pode ser porque esses grupos não tinham poder para mudar o regime, ou motivação para implementar a democracia.
 
Mas a história é diferente quando trabalhadores industriais saem.
 
Descobrimos que é muito mais provável a democratização seguir protesto de massa dominados pelas classes médias urbanas – e ainda mais quando trabalhadores industriais estão protestando. Esses grupos frequentemente combinam uma forte preferência pela democracia (especialmente em sociedades urbanizadas), com a capacidade de forçar até o fim mudanças democratizantes.
 
Trabalhadores industriais, em particular, podem usar sindicatos, redes de trabalho internacionais e partidos sociais democráticos para coordenar poderosos desafios contra regimes ditatoriais. Aqui, nós concordamos com influentes, abrangentes estudos de específicos países europeus e latino-americanos, com destaque para o papel histórico dos movimentos trabalhistas em impulsionar pelo sufrágio universal e eleições multipartidárias competitivas.
 
As experiências nesses estudos podem ter sido atípicas. O nosso estudo é o primeiro a investigar sistematicamente se a composição social dos movimentos de protesto importa para a democratização, em uma amostra global de países. Nós investigamos todos os principais movimentos de protesto de massa através do mundo, de 1900 até 2006, e registramos quem dominou cada movimento – trabalhadores industriais, classes médias urbanas, trabalhadores rurais, grupos étnicos, grupos religiosos, etc.
 
A descoberta mais forte do nosso estudo é que movimentos de protesto dominados por trabalhadores industriais superam todas as outras campanhas de protesto em provocar a democracia. Campanhas de trabalhadores industriais também claramente superam situações sem quaisquer campanhas de protesto de massa. Há alguma evidência de que movimentos de classes médias urbanas são associados com a democratização, mas são mais fracos do que a evidente importância dos trabalhadores industriais.
 
Debates atuais sobre a recente ascensão de populistas autoritários podem apontar o dedo para as classes trabalhadoras – mas nossa pesquisa sugere que trabalhadores industriais têm sido cruciais para o progresso histórico da democracia.
 
*Traduzido e adaptado do artigo de Sirianne Dahlum, pesquisador e doutorando no International Security Program, em Belfer Center, Harvard Kennedy School, Carl Henrik Knutsen, professor de ciência política na Universidade de Oslo e Tore Wig é professor associado de ciência política na Universidade de Oslo, publicado no jornal The Washington Post, em 24 de outubro de 2019.
 
Traduzido por Luciana Cristina Ruy


Rádio Peão Brasil / Sirianne Dahlum, Carl Henrik Knutsen e Tore Wig*
 

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