Saúde
23/07/2020 - 09h22

Ministério da Saúde está há semanas sem definir próxima pesquisa nacional sobre coronavírus


CartaCapital questionou governo ao longo de 2 semanas sobre mapeamento de covid-19. ‘Ideal era manter até vacina’, diz reitor da UFPEL
 
O Ministério da Saúde ainda não cravou a continuidade de mais uma fase da pesquisa sorológica que identifica quantos brasileiros foram infectados pelo coronavírus, mesmo no momento em que regiões do País registram expansão de casos e óbitos em decorrência da covid-19.
 
O último levantamento, realizado em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e com o Ibope, fazia parte de uma pesquisa encomendada pelo Ministério na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta pelo valor de R$ 12 milhões.
 
Estavam previstas a realização de três fases. A última etapa identificou que o Brasil tinha uma subnotificação de casos na casa das 6x, o que faria com que o país registrasse, na época, 8 milhões de casos de coronavírus em vez dos 1,5 milhão de casos confirmados que os dados oficiais do Ministério mostravam.
 
Dados socioeconômicos sobre os impactos da pandemia na vida de negros, pobres, indígenas e outros grupos marginalizados também foram apurados pela equipe de pesquisadores.
 
A pesquisa entrevistou e testou 89.397 pessoas em todas as regiões do país durante os meses de maio e junho de 2020, e foi definida como a maior em identificação sorológica do coronavírus do mundo.
 
No entanto, após a apresentação pelo Ministério da Saúde no dia 02 de julho, feita com a presença do reitor da UFPel, Pedro Hallal, tanto a Universidade quanto a imprensa ficaram sem respostas sobre a próxima fase da pesquisa epidemiológica no Brasil.
 
No dia 9 de julho, o Ministério da Saúde respondeu à CartaCapital que daria continuidade aos estudos de inquérito epidemiológico sobre o coronavírus na população, mas que ainda não havia certeza se a UFPel participaria da análise.
 
“O Ministério da Saúde dará continuidade a estudos de inquérito epidemiológico de prevalência de soropositividade na população. Ainda não está definido se será a continuação do EPICOVID19-BR, pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) ou por outra instituição, ou PNAD Covid, pelo IBGE. Uma alternativa em estudo é utilizar ambas as estratégias.”, respondeu a pasta.
 
Oito dias depois, no dia 17 de julho, a reportagem questionou o Ministério novamente sobre a definição dos responsáveis pela pesquisa. A resposta foi breve: “Não, [o Ministério] ainda não definiu”. No mesmo dia, o IBGE, por sua vez, afirmou que não iria “se manifestar sobre o assunto”.
 
Para Pedro Hallal, uma pesquisa das dimensões observadas deveria durar, pelo menos, até a vacina contra o coronavírus chegar ao País. “O ideal era que a gente mantivesse essa pesquisa até a vacina, porque aí a gente vai inclusive ver o efeito dela. É uma plataforma espetacular. Agora, claro que isso depende do País ter uma visão de ciência e tecnologia.”, diz.
 
“O fato dos pesquisadores estarem de braços cruzados hoje, no meio da pandemia no país, diz muito sobre a forma como o Brasil trata ciência e tecnologia. Em muitos casos, ficamos de braços cruzados esperando financiamento pra fazer o óbvio – e, nesse caso, fazer a pesquisa seria o óbvio.”, complementa o reitor. 
 
A periodicidade da pesquisa, explica, é importante para amparar como o vírus tem se comportado em distintas regiões ao longo do tempo. No Rio Grande do Sul, onde a pesquisa vai para a 6ª fase e tem mais duas para serem realizadas, foi possível observar o crescimento sustentado do número de infectados pelo vírus.
 
“Em abril, não tinha quase ninguém infectado no estado. A gente encontrou que o percentual de infectados no estado era de 0,05%, ou seja, uma pessoa a cada 2 mil habitantes. Na última etapa, no final do mês de junho, já tinha aumentado 10 vezes, para 0,5%. Muito provavelmente, pelas estatísticas oficiais, a tendência é que a gente encontre um resultado muito maior.”, diz Hallal.
 
Mudança de metodologia deixa informações para trás
 
Enquanto a pandemia continua a crescer de forma heterogênea no País, o mapeamento sorológico se dá como a única ferramenta para medir a real dimensão da subnotificação de casos, os perfis socioeconômicos, de idade, gênero e classe mais afetados pela covid-19.
 
Esses pontos, para o pesquisador da UFABC e colaborador do Observatório Covid-19, Renato Coutinho, deveriam ser os principais em relação às políticas públicas de flexibilização do isolamento social – incluindo a volta às aulas presenciais.
 
“Você pode tomar decisões erradas no meio do caminho por falta de conhecimento dos detalhes. Num momento de crise, você precisa investir em mais uma frente de pesquisa, mas isso não quer dizer que você deva excluir o outro. O [estudo] da UFPEL é o único realmente nacional que a gente tem para poder comparar situações”, diz. 
 
Para ele, a mudança de parâmetros para realizar o inquérito sorológico também pode utilizar de metodologias diferentes que, mesmo competentes, deixarão algumas informações para trás.
 
No entanto, Coutinho destaca que, para além da falta de definição de novas pesquisas há semanas, o Brasil tem se amparado em uma política errada de contingenciamento da pandemia – incluindo os estados que antagonizaram com o governo de Jair Bolsonaro, mas abriram os comércios à revelia de pesquisadores.
 
Para ele, autorizar uma abertura gradual com base na capacidade dos hospitais de tratarem os doentes não é um parâmetro correto. “Você não diminui a pandemia, administra os leitos e os corpos, mas não a epidemia em si.”, diz. O papel de parâmetro, no caso, seria do Ministério da Saúde, que está “completamente ausente” da discussão, opina o pesquisador. 
 
Agora, a UFPEL busca financiadores para a próxima etapa nacional. No RS, a pesquisa foi financiada por meio da iniciativa privada. Anteriormente, o valor repassado pelo Ministério da Saúde serviu para comprar EPI’s e pagar o processamento de dados, mas todos os testes foram doados pela pasta para que o levantamento pudesse acontecer, afirmou Hallal, que define este como mais um momento de desprezo do País pela ciência: “Não é a primeira vez que isso acontece, mas agora está aparecendo mais.”
 
 
Carta Capital
 

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