Tecnologia
27/01/2012 - 04h42

Crônicas de um mundo em decomposição


O cara pensa assim: que perrengue passavam nossos ancestrais na idade da pedra! Dificuldade para conseguir alimento, fragilidade diante dos predadores de maior porte e velocidade, incapacidade de lidar com os reveses causados por tempestades, secas e enchentes, falta de defesa contra doenças e epidemias, medo de ataques de tribos rivais.
 
O cara pensa assim: que sorte a minha, de viver em pleno século XXI, cheio de iPhones, iPads, iPods, net, internet, e-mails, e-books e Facebooks.

E então um bueiro explode sob seus pés e o cara, agora sem os pés, pensa assim: preciso postar no Face que eu perdi os pés na explosão de um bueiro! Ah, como era dura a vida de Guttenberg, que mesmo tendo inventado a prensa não tinha como avisar imediatamente o mundo todo do seu grande feito.

E então o cara vai atravessar a rua enquanto posta no Face que acaba de perder os pés e um ônibus tresloucado a altíssima velocidade lhe arranca um dos braços e ele pensa: porra, ainda bem que ainda tenho um braço pra tuitar pra galera que eu perdi o outro braço. Ah, que vida a do Tolstoi, que tinha de molhar o bico da pena na tinta para escrever cada um dos parágrafos de Guerra e Paz.

O que o Tolstoi não faria com um laptop, galera?

E o cara pensa assim: preciso postar no meu blog essa sacada genial que eu tive sobre o que o Tolstoi não faria com um laptop, rsrsrsrs.

Sim, o cara, a essa altura, quando ri em pensamento, ri assim: rsrsrsrsrs.

E então três prédios desmoronam de repente sobre sua cabeça, sem nenhuma razão plausível, e o cara não tem tempo de tuitar ou postar mais nada.



Tony Bellotto

Músico e escritor
 

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