Cultura e Entretenimento
19/07/2012 - 03h50

A Liberdade do Corpo




Ao trazer à tela a história do rebelde e anarquista recifense Zizo, o Poeta, Febre do Rato reforça uma fatalidade atual: antes livre e solto por todos os filmes e gêneros, o corpo sumiu de cena no cinema brasileiro da pós-retomada. Tanto que este novo longa de Cláudio Assis ou um precioso exemplo como Falsa Loura (com o mais forte nu frontal dos anos 2000, o de Rosanne Mulholland, assinado por Carlos Reichenbach, mestre da libertária Boca do Lixo dos anos 1970) confirmam que nos últimos 15 anos a nudez em pelo foi trancada no reservado quarto dos projetos mais autorais.

O motivo é histórico e coincide com o ano de 1993, quando o cinema brasileiro, traumatizado pelo baque do Governo Collor, retomou gás apoiando-se num modelo de proeza técnica, negando suas origens presentes nos filmes populares que revelavam a própria precariedade material do país, como os da pornochanchada. Na incapacidade de mimetizar Hollywood, o senso comum do cinema nacional dos anos 2000 adotou a televisão como paradigma, e em sua típica filiação com a pueril estética da publicidade.
 
Nessa lógica, um pênis ereto até pode estar à vista de todos caso corrobore o valor artístico de um filme autoral. É o caso, inclusive, deste Febre do Rato, que mostra sexo e nudez em pelo numa rebeldia mais comportada (filmada no sofisticado preto-e-branco de Walter Carvalho), mas cuja força surge na comparação: basta ver o que (não) é mostrado de Deborah Secco nas “ousadas” cenas de sexo fastfood de Bruna Surfistinha, um puro efeito.
 
Contra isso, a transgressão visual estaria sobretudo no naturalismo, que reproduz melhor a materialidade dos corpos. Foi assim quando o nosso cinema, no clima de liberalização sexual dos anos 1960, sintonizou-se com um cinema moderno mais físico. E marcou ao trazer uma realidade mais crua dos corpos in natura, em vez de imagens idealizadas e elegantes, o que foi uma afronta ao moralismo do regime militar no Brasil (ainda que, por outro lado, o sexo na pornochanchada, catártico, fosse útil ao governo repressor).
 
À parte essa mão dupla, a forte contribuição desse cinema que vigorou nos anos 1970 e 80 foi sobretudo estética (política), numa liberdade que jamais determinou em que tipo de filme apareceriam seios, pênis e nádegas, tampouco se um galã dos anos 50 como John Herbert contracenaria com travestis, com Gloria Menezes ou com a “mulher objeto” Helena Ramos. Livres, nudez e sexo estariam tanto numa comédia como O Homem de Itu (1978) como nos refinados dramas de Walter Hugo Khouri ou nos filmes experimentais de Rogério Sganzerla.
 
Esse estado de coisas é bem condensado em Sônia Braga. No mais forte trânsito livre do audiovisual brasileiro, ela aparecia em Dona Flor e seus Dois Maridos, em 1976, logo após ter encontrado seu lugar ao sol na televisão, em Gabriela (1975). Dois anos depois, seu corpo incansável estaria no horário nobre em Dancin’ Days e, nu em pelo, no clássico A Dama do Lotação. Por isso, nada mais significativo (e, aí sim, pornográfico) que a insossa Juliana Paes reencarnar agora o papel que Sônia Braga honrou tão bem na televisão de 1975.



O FILME

Febre do Rato, de Cláudio Assis. Com Irandhir Santos, Nanda Costa. Em cartaz nos cinemas.




Paulo Santos Lima
Jornalista e crítico de cinema
   

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