Mundo
05/11/2012 - 07h31

Judeus malvados levam humor a Nova York alagada




Qualquer cidadão nova-Iorquinos já passou algum tempo, provavelmente, em estúdios desconfortavelmente pequenos, mas é de duvidar que qualquer um deles já se sentiu mais claustrofóbico do que os atores na peça Bad Jews (Judeus Malvados, em tradução livre). A nova comédia de Joshua Harmon nem esperou a cidade se recuperar do furacão Sandy e estreia, nesse fim de semana, no teatro Roundabout Underground’s, em Manhattan.

É verdade que há de vistas espetaculares sobre o rio Hudson – a partir do banheiro, claro – mas para se chegar ao armário é preciso fazer um trampolim e transpor a cama dobrável, sem contar que o quarto é do tamanho de um provedor de roupas em uma loja popular. Se o espaço é ínfimo, fica reduzido a uma caixa de sapatos pela presença de Diana Feygenbaum, uma presença capaz de sugar todo o ar de todos ao seu redor no Upper West Side. Diana – que prefere ser conhecida pelo seu nome hebraico, Daphna – é vivida pela atriz Tracee Chimo em um cruzamento entre a volátil Sandra Bernhard em sua versão mais estridente e Sarah Silverman na veia mais sarcástica, talvez com um pouco da jovem Barbra Streisand jogada na mistura, como um tipo de amaciador.
 
Daphna, por medo de escoriação, realmente considera o apartamento uma dádiva. Afinal, foi comprado por seus tios para complementar a presença muito maior no mesmo prédio, como uma espécie de quarto de hóspedes e quarto da bagunça para os seus meninos. Entre os muitos frequentadores do espaço, o ressentimento de Daphna é exatamente com estes primos muito mais ricos, Liam (Michael Zegen) e Jonas (Philip Ettinger). Daphna bufa com escárnio quando Jonas, que divide o apartamento com ela por uma noite, após o funeral de seu avô, calmamente faz duras observações acerca do fato de a família da prima ser pobre.
 
É claro desde os momentos iniciais da peça que esta será uma longa noite para o pobre Jonas, que tenta afastar monólogos acusatórios de Daphna para tentar se concentrar em seu videogame. Ele sabe que as coisas só vão piorar quando seu irmão chegar: o antagonismo de longa data entre os primos de primeiro grau torna a violência terrível em Mortal Kombat parecer brincadeirinha de crianças.
 
Rondando o apartamento como uma pantera enjaulada, Daphna repisa, incessantemente, a total falta de sentimentos de Liam para com seu amado avô. Como não poderia aparecer no funeral? O que foi, perdeu o celular? Estava esquiando em Aspen, enquanto o vovô penava em seu leito de morte? Quem é a nova namorada com o nome absurdo de Melody? Daphna não poderia deixar de recordar o incidente infame quando, na Páscoa, Liam furtivamente comeu um cookie e, de brincadeira, virou-se para sua namorada na época e disse:
 
– Eu sou um judeu mau.
 
Este apartamento pode ser pequeno, mas o que não falta é espaço para emoções.
 
Bad Jews é uma peça de Joshua Harmon; dirigida por Daniel Aukin; sets de Lauren Helpern; costumes de Dane Laffrey; luzes de Mark Barton; som por Shane Rettig; diretor de palco, Kasey Ostopchuck; gerente, Isaac Katzanek; gerente-geral, Nicholas J. Caccavo. Em cartaz no Black Box Theater, que fica no teatro do Harold and Miriam Steinberg Center, 111 West 46th Street, Manhattan; (+212) 719-1300, roundaboutunderground.org. Em cartaz até o dia 16 de Dezembro. Tempo de duração: 1h40
 
Com: Tracee Chimo (Daphna Feygenbaum), Philip Ettinger (Jonah Haber), Molly Ranson (Melody) e Michael Zegen (Liam Haber).


The New York Times

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