Trabalho
04/04/2011 - 07h31

Sem projeto, país vive apagão de talentos


Aparentemente, o fato de o governo buscar facilitar a entrada do capital intelectual estrangeiro para atender as demandas internas do país pode nos parecer que se trata somente de um sinal do vigor atual da nossa economia.

Isso procederia, não fosse pelo fato de essa necessidade sinalizar muito mais a falta histórica de um projeto de país que tenha considerado a educação como fator-chave para a formação de especialistas em várias áreas do conhecimento, que hoje são tão necessários.

Primeiramente, devemos nos questionar se, de fato, estamos capturando os melhores cérebros lá fora.

Economias mais competitivas promovem a caça dos cérebros mais brilhantes para alavancar a inovação. Sabemos que, geralmente, não é esse o processo que está acontecendo no Brasil.

Estamos precisando de pessoas com boa formação superior para trabalhar, muitas vezes, em indústrias de baixo valor agregado.

O que mais nos impressiona é que, tantos anos depois de Paulo Freire ter denunciado os ameaçadores defeitos do nosso modelo autoritário de educação, tenhamos feito tão pouco progresso em remover esses entraves.

Somada a nossa contemporânea complacência em relação a uma educação baseada em valores, temos formado profissionais com perfil bastante inadequado para as demandas das empresas contemporâneas.

Salvo honrosas exceções, temos formado legiões de alunos despreparados para o desafio daquilo que se convencionou chamar de Capitalismo do Conhecimento.

Mais do que conteúdos, a nova empresa precisa de profissionais capazes de pensar com liberdade e autonomia. De se autogerenciar para entregar resultados complexos em cenários imprevisíveis.

A nossa experiência em consultoria nos permite dizer que vivemos algo semelhante a um apagão de talentos.

A falta de um projeto educacional atrelado a um projeto de país que contemple a educação como fator estratégico para o desenvolvimento sustentável da nação nos coloca em forte desvantagem ante outros países, especialmente os asiáticos como a China e a Índia, que estão sabendo colocar na educação o seu projeto de futuro.

Contribuem para essa desvantagem a ausência de valores de produtividade do trabalho e a falta de disseminação da ideia de que a escola precisa ser comunidade de excelência, em que cada indivíduo importa pela capacidade de contribuir com seu talento e fazer a diferença.

A tarefa de capacitar gestores que saibam enfrentar os desafios impostos por novas formas de produção de valor, por meio da aplicação intensiva do conhecimento e de engenheiros e demais profissionais de formação técnica aplicada, deve ser entendida como uma ação de continuidade.

Isso deve ser viabilizado via um projeto educacional que tem o seu início na escola primária, quando os valores que orientam os indivíduos estão sendo sedimentados.


Marco Tulio Zanini
Consultor de empresas e coordenador do mestrado executivo em Gestão Empresarial da Ebape-FGV

Comentários (0)


Fala Santos
E-mail: contato@falasantos.com.br
© 2010 Fala Santos. Todos os direitos reservados. site criado por