Mundo
15/01/2014 - 17h06

Fim de guerra


Depois de 134 anos, a Guerra do Pacífico vai acabar. Na segunda-feira, 27, um tribunal das Nações Unidas divulga a nova fronteira entre o Chile e o Peru.
 
O redesenho desse pedaço do mapa da América do Sul é o tema político mais relevante e sensível para 57,8 milhões de pessoas que vivem nos territórios a oeste de Brasília. Sinais de acordo são evidentes. "Espero que nunca mais tenhamos um problema de fronteira com o Peru", disse ontem o presidente chileno Sebastián Piñera, enquanto o líder peruano Ollanta Humalla reafirmava "a convicção nos nossos argumentos, sem que se deva confundir com triunfalismo".
 
A guerra começou em 1879. O Chile invadiu o Peru e a Bolívia. O confronto naval e terrestre durou quatro anos. Os chilenos tomaram o porto de Arica — mais tarde devolveram a cidade de Tacna ao Peru—, e fecharam a saída boliviana para o mar, deixando o país sem portos.
 
No rastro da derrota floresceu o desejo de vingança, que balizou a política externa e militar do Peru e da Bolívia — jornais bolivianos ainda publicam editoriais semanais incitando o governo à retomada da rota perdida para o Oceano Pacífico. Foi um fator determinante na corrida armamentista chilena e peruana.
 
A Guerra do Pacífico chegou ao século XXI nas sombras. Prova viva é o suboficial da Força Aérea do Peru Víctor Ariza Mendoza, 37 anos. Na pele de "Oscar", sem físico ou resquício do arquétipo James Bond, ele trabalhou anos em silêncio como espião chileno pago pelos governos socialistas de Ricardo Lagos (2000-2006) e Michele Bachelet (2006-2010) no coração do Departamento de Planos e Operações do comando aéreo peruano, em Lima. Para os chilenos, foi uma fonte valiosa porque naquela seção transitavam informações sobre os projetos bélicos e as operações de espionagem da Aeronáutica, do Exército e da Marinha peruana.
 
Com acesso ao inventário diário do material de guerra, e a detalhes do estado operacional de cada equipamento, sua localização, rotas de transporte e áreas de armazenamento, "Oscar" repassou a Santiago, por exemplo, cópias do "Plan Maldonado", para reequipamento da Força Aérea peruana com caças MIG-29, Sukhoi-25, Mirage-2000 e Airbus-37B; dados, fotografias e planos das principais bases e posições dos aviões de combate; os códigos diplomáticos da embaixada no Chile; os programas de reparo de aviões e de helicópteros, além das identidades de espiões peruanos.
 
Por coincidência, no período em que atuou, o Chile alavancou as compras militares. Lagos e Bachelet gastaram quase US$ 10 bilhões no bazar mundial de equipamentos bélicos. Os peruanos Alejandro Toledo (2001-2006) e Alan García (2006-2011) reponderam com a duplicação das aquisições. A Venezuela, sob Hugo Chávez, entrou no jogo, multiplicou seus gastos por cinco — e passou a financiar parte do orçamento militar da Bolívia de Evo Morales. O Brasil, por razões domésticas, se conteve no projeto de construção de um submarino nuclear.
 
Descoberto em 2009, "Oscar" foi condenado a 35 anos de prisão. Em janeiro do ano passado recebeu mais 15 anos, por lavagem de dinheiro (foram localizados US$ 156 mil pagos pelo Chile em suas contas bancárias nos Estados Unidos).
 
Os governos do Chile e do Peru anunciam um feriado informal para o dia 27, quando se prevê um novo mapa de fronteira. É fim de uma guerra de 134 anos na América do Sul.





José Casado é jornalista