Cidades
12/12/2014 - 08h59

Edifícios sem garagens, não!




Recentemente, o jornal A Tribuna publicou interessante matéria sobre o processo de urbanização em Santos, a partir de pesquisa realizada por uma geógrafa junto com um estudo elaborado pela Administração Municipal que pretende modificar o Plano Diretor atual.
 
Algumas constatações são evidentes e irreversíveis, como a intensa verticalização, a migração de moradores com poder aquisitivo mais baixo para outras cidades ou periferias e o uso da zona urbana do município de forma mista, ou seja, um mesmo quarteirão pode ser utilizado para residências, comércios ou serviços.
 
Quando li que a prefeitura estuda alterar o Plano Diretor para deixar a cidade mais democrática, com moradias mais baratas em locais próximos ao transporte coletivo e dispondo de toda a infraestrutura urbana (água, luz, esgoto, pavimentação), fiquei entusiasmado, pois desde que assumi o mandato uma das minhas premissas é defender a habitação digna para os moradores de áreas de risco, com congelamento de favelas e a não reocupação das áreas ociosas.
 
A utilização de áreas degradadas no Centro Histórico, Vila Nova e Paquetá, em princípio, é uma alternativa bastante viável, já que essa região da cidade tem potencial para moradias e fica em local estratégico, próximo a milhares de postos de trabalho.
 
Entretanto, quando vi que a proposta é estimular a construção de prédios sem garagens, copiando uma ideia da Prefeitura da Capital, fui obrigado a discordar veementemente e me colocar contrário a esse conceito, pois considero estarmos vivendo um problema crônico de mobilidade urbana e uma das vertentes mais graves é a falta de vagas de estacionamento em vias públicas.
 
Construir prédios ou casas sem garagem, sob a concepção de baratear os custos, é desconhecer ou desconsiderar a nossa realidade. Quem transita pela cidade pode constatar que mesmo quem reside numa palafita sobre o mangue ou numa área íngreme de encosta de morro possui um veículo automotor e acaba estacionando em frente ou próximo de sua residência, não importando a largura e a capacidade da via.
 
Há que se considerar que não se pode proibir as pessoas de comprarem carros e motos para trabalho ou lazer simplesmente porque residem num imóvel mais barato. O problema de falta de espaço para estacionar permaneceria e os conflitos pela mobilidade só aumentariam, mesmo em ruas e avenidas mais largas e de maior capacidade de tráfego de veículos.
 
Um exemplo disso ocorreu há pouco na região no Canal 3, onde existem alguns edifícios antigos, sem ou com poucas garagens, comércios sem vagas suficientes para clientes e a necessidade de melhorar a fluidez do trânsito.
 
Portanto, acredito no bom senso dos técnicos responsáveis pela reformulação deste Plano Diretor, para revisar conceitos ideológicos e premissas do projeto, não permitindo, de maneira nenhuma, que daqui por diante se construam residências e/ou estabelecimentos comerciais, em qualquer lugar da cidade, sem vagas de garagem.
 
O problema não pode ser resolvido por decreto e sim com diálogo e respeito aos costumes da população. Só assim poderemos almejar um progresso sustentável e deixar a cidade mais democrática.

 


 
Murilo Barletta é vereador em Santos (PR)