Mundo
16/09/2015 - 06h59

Ser pobre custa muito caro


‘Em Houston e na Philadelphia é crime dividir comida com indigentes. É isso aí: a lei, de forma majestosa, impõe a ricos e pobres o dever de ocultar a pobreza’
 
Dia desses tive a oportunidade de ler uma interessante pesquisa sobre o quanto se rouba dos pobres lá nos Estados Unidos da América. Uma leitura fascinante, que sem dificuldades poderia ser aplicada ao nosso país em muitos aspectos.
 
O estudo começou pelo emprego. Algumas empresas norte-americanas, aproveitando o momento difícil da economia, começaram a estender a jornada de trabalho em alguns minutos diários, sem qualquer compensação. Quem não concordar é despedido. Outras empresas foram apanhadas desviando míseros centavos dos contracheques de seus funcionários – algo que sempre passa desapercebido. Isto pode parecer pouco, mas anualmente são surrupiados dos mais pobres, por conta de tais expedientes, nada menos que US$ 100 bilhões.
 
Esta conta fica ainda mais revoltante se considerarmos que o governo norte-americano distribui aos mais pobres recursos assistenciais da ordem de US$ 55 bilhões anuais – e os mais ricos roubam deles praticamente o dobro!
 
Se você tem recursos, basta ir a alguma loja e fazer suas compras em paz. Algum eventual crédito virá rapidamente, e quase sempre sob juros razoáveis. A realidade do “Zé-Povinho”, no entanto, é bastante diferente: haverá que se ir a alguma financeira implorar por um crédito qualquer, que normalmente virá acompanhado de juros extorsivos. É assim que, lá nos Estados Unidos, são abocanhados dos mais pobres nada menos que US$ 30 bilhões a cada ano.
 
Ser pobre, lá nos EUA, não é apenas penoso – é também perigoso. Recentemente, em um estudo realizado sobre 15 estados daquele país, descobriram que em 14 pobreza é crime. Quanto mais você descer na escala social, mais criminoso tenderá a ser.
 
Inicio pelo local de dormir. Se você tem dinheiro, dorme em casa. Se não tem, dorme na rua – e acaba preso. Se você tem dinheiro, vai ao banheiro. Se não tem, acaba descobrindo que banheiros públicos são raridade, alivia-se na rua e… acaba preso. Se você tem dinheiro, alimenta-se em um restaurante ou em casa. Se não tem, vira mendigo – e acaba preso. Se você tem dinheiro, compartilha alguma refeição em sua casa, com amigos. Se você não tem, divide um pão dormido na praça – e acaba preso. Registro que não estou exagerando: em Houston e na Philadelphia é crime dividir comida com indigentes. É isso aí: a lei, de forma majestosa, impõe a ricos e pobres o dever de ocultar a pobreza.
 
À primeira vista estes parecem ser problemas de menor gravidade – até quando constatamos que eles respondem por 90% da criminalidade de baixo potencial ofensivo dos EUA, e por nada menos que US$ 2 bilhões recolhidos a cada ano dos miseráveis, a título de multas ou penas alternativas.
 
Vamos a outro exemplo: se você tem um automóvel de luxo e comete alguma infração de trânsito, paga a multa e segue sua vida. Mas caso seja um indivíduo modesto, proprietário de alguma “lata-velha”, e não tenha dinheiro para arcar com o valor da multa, prepare-se para ter sua Carteira de Habilitação confiscada – isto acontece na maioria dos estados norte-americanos. Neste quesito, inclusive, o Estado do Novo México foi além: aos devedores de multas de trânsito corta-se o fornecimento de água e gás. Que fiquem sujos, sem aquecimento e sem poder cozinhar, pois somente assim aprenderão que ser pobre custa muito caro.
 
Diante desta realidade fico a pensar que, no final das contas, não precisamos nos preocupar em fazer algo pelos miseráveis. Na verdade, basta que nada façamos contra eles.





Pedro Valls Feu Rosa, desembargador desde 1994, foi presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) no biênio 2012/2013.