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08/11/2017 - 05h13

Destino de cadáver embalsamado de Lênin assombra russos após 93 anos




Um espectro ronda o reino do presidente russo, Vladimir Putin: o cadáver embalsamado de um xará seu, Lênin.
 
Noventa e três anos após a morte do líder da revolução bolchevique, o Kremlin não sabe como lidar com a mais vistosa relíquia do regime comunista que imperou na Rússia entre 1917 e 1991.
 
O centenário da revolução, que ocorre nesta terça (7, 25 de outubro no antigo calendário da Rússia czarista), estimulou a revisão do caso.
 
Um grupo de deputados tentou, sem sucesso, aprovar lei enviando Vladimir Lênin (1870-1924) para o cemitério de São Petersburgo onde sua mãe está enterrada.
 
A oposição ao caso foi encabeçada, obviamente, pelo Partido Comunista, segunda maior força na Duma, a Câmara baixa do Parlamento.
 
O presidente não se manifestou, e o líder dos comunistas diz que ele prometeu deixar Lênin onde está.
 
Boris Ieltsin, antecessor de Putin, tentou enterrar o cadáver em 1998, mas fracassou.
 
Segundo pesquisa feita em março pelo instituto de opinião pública Levada, 31% dos russos querem a manutenção do mausoléu, contra 32% que preferem o líder enterrado com outros expoentes comunistas junto à muralha do Kremlin. Para 26%, o cemitério seria o melhor destino.
 
Lênin vem perdendo espaço para seu sucessor, Josef Stálin, na preferência dos russos. Na mesma pesquisa, o Levada apurou que os 67% que o preferiam como figura de proa da revolução em 1990 caíram para 26%, enquanto Stálin subiu de 8% para 24%.
 
ORTODOXOS
 
A maior oposição à tumba vem da Igreja Ortodoxa. O czar Nicolau 2º, executado com sua família por ordem de Lênin em 1918, foi canonizado pela instituição.
 
Enquanto isso, o corpo passou neste ano por sua revisão bienal, na qual é imerso por 30 dias numa solução de acetato de potássio e glicerol e tem seus aspectos estéticos tratados por dois meses.
 
Em 2016, o custo de manutenção do cadáver no mausoléu na praça Vermelha, em frente ao Kremlin onde Putin dá expediente, foi revelado pela primeira vez: o equivalente a R$ 730 mil anuais.
 
A salgada conta inclui não só a tumba em si, uma edificação de mármore, granito, pórfiro e labradorita, inspirada em monumentos mortuários como as pirâmides com degraus do sítio de Saqqara, no Egito. Ela paga os cientistas do laboratório que conserva o ícone soviético.
 
A ironia é que Lênin, morto com quase 54 anos, não queria ser exposto, como ficou claro após quase morrer em um atentado em 1918.
 
Depois de sucumbir ao quarto derrame de uma série que o acometeu desde 1922, em 21 de janeiro de 1924, o líder foi embalsamado às pressas para garantir a exposição na Casa da União, em Moscou.
 
Só que a exibição foi um sucesso, e o regime mal saído de uma viciosa guerra civil precisava de símbolos para garantir sua unidade enquanto a luta pela sucessão opunha Leon Trótski a Stálin —acabou vencida pelo último, ditador até 1953.
 
Em seis semanas, cerca de 100 mil moscovitas visitaram Lênin em uma tumba de madeira, que foi substituída por uma maior em agosto.
 
O embalsamamento deu tão certo que, em 1929, o governo se convenceu de que poderia expor permanentemente o líder, inaugurando então no ano seguinte a tumba atual e aperfeiçoando os métodos de conservação.
 
A prática inspirou outros líderes socialistas, como o chinês Mao Tsé-tung e o vietnamita Ho Chi Minh. Os dois primeiros líderes da dinastia Kim, na Coreia do Norte, também foram embalsamados com a técnica soviética.
 
Stálin passou pelo mesmo processo, sendo colocado ao lado de Lênin de 1953 a 1961, quando a rejeição a seu legado o levou a ser enterrado junto à muralha do Kremlin.
 
A técnica de conservação, segundo a "Scientific American" revelou em 2015, inclui a indução de parafina, glicerina e caroteno para substituir a gordura subcutânea.
 
Com o passar dos anos, a pele assumiu aspecto de cera, e eventualmente é de fato moldada para manter o aspecto do líder. Os cílios são artificiais, mas cabelo, barba e sobrancelhas, originais. Fungos são removidos com alvejante especial.
 
O mausoléu é um lugar solene, apesar da fila de turistas tirando selfies do lado de fora —ele pode ser visitado das 10h às 13h, exceto segundas e sextas, e a entrada é livre (mochilas precisam ficar de fora, por R$ 0,17). Lá dentro, não é possível tirar fotos.
 
O lugar é escuro, e o corpo fica num caixão de vidro blindado desenhado em 1973, com iluminação destacando seu rosto e mãos. Só deixou o mausoléu em 1941, quando os nazistas estavam às portas de Moscou e foi enviado à Sibéria, retornando em 1945.
 
Com destino incerto, Lênin vai cumprindo o que diz a piada russa: morto, passa bem.
 
 
Folhapress