Esportes
11/06/2018 - 05h17

Primeiro raio do tênis brasileiro, Maria Esther foi fenômeno inexplicável


Se algum atleta brasileiro merece ser chamado de "fenômeno", não é Ronaldo

 
Maria Esther Bueno era uma força da natureza. Se algum atleta brasileiro merece ser chamado de “fenômeno”, não é Ronaldo, mas a tenista paulistana que surpreendeu o mundo em 1959, sendo campeã em Wimbledon e no US Open pela primeira vez.
 
Porque o tênis brasileiro praticamente não existia. Sim, muita gente jogava por aqui, heroicos pioneiros, mas o mundo não sabia disso. A simples inscrição de Maria Esther em Wimbledon foi recebida com surpresa pelos organizadores. Difícil imaginar a reação deles ao ver o troféu nas mãos da brasileira.
 
Aos 19 anos, ela era delicada. Claro, as jogadoras da época não eram, fisicamente, atletas de alto desempenho. Mas, na parte técnica, americanas, inglesas, australianas e francesas já dispunham de técnicos em seus países tentando dar um padrão de jogo a elas.
 
Maria Esther era diferente. Não era um produto de uma escola, não recebeu um ensinamento técnico e tático que chegasse perto daquele que já alimentava as jovens tenistas no Primeiro Mundo da raquete.
 
Ela tinha um jogo de movimentos rápidos, sim, mas naturais, não pareciam fruto de treinamento. Para resumir, ela golpeava a bola para passá-la sobre a rede, era essa a sua única preocupação. Dava a impressão de não estar jogando contra a oponente, mas sim contra si mesma. Seu objetivo era não errar, apenas jogar a bolinha para o outro lado da quadra, e fazia isso com graça, leveza.
 
Assistir às meninas tenistas de hoje, que batem na bola como quem pretende fincá-la na parede do fundo da quadra da adversária, é ver outro esporte. Neste aspecto plástico, a evolução do tênis não foi exatamente um ganho para as plateias do esporte.
 
A falta de estrutura do tênis no Brasil, que vem desde o século passado e ainda está piorando, só reforça o caráter de exceção da carreira de Maria Esther Bueno. Ela chegou a Wimbledon sem nenhuma experiência em quadra de grama, foi lá e ganhou o primeiro de seus três títulos de simples no torneio.
 
Quem joga ou já jogou tênis sabe a enorme diferença em praticá-lo nas quadras de saibro nas quais ela jogava no Brasil e numa quadra gramada. Ela provavelmente nunca soube. Era a mesma tenista, o piso nem importava.
 
Não há explicações razoáveis para o sucesso de Maria Esther. Sair do Brasil para imediatamente ser a número um do mundo foi algo sem precedentes. E o tênis brasileiro ainda viu o raio cair duas vezes no mesmo lugar, com Gustavo Kuerten. Lamentável um país ter a maior estrela mundial de um esporte, por duas oportunidades, e não ter aproveitado esse destaque para criar um plano de desenvolvimento da modalidade.
 
Maria Esther Bueno jogou décadas antes da transformação do tênis em um esporte milionário. Numa conta grosseira, alguém que conquistasse agora os mesmos torneios vencidos por ela nos anos 1950 e 1960 teria acumulado pelo menos US$ 40 milhões (cerca de R$ 160 milhões).
 
Mas o pior para ela talvez tenha sido perceber que chegou a ser esquecida pela maioria dos brasileiros. Afastada das quadras, andava incólume por São Paulo. Nos anos 1990, este repórter viu a delicada senhora ser abordada por jovens fãs na rua, em Londres. Sem dúvida, garotos com conhecimento enciclopédico do tênis.
 
O fenômeno Maria Esther Bueno merece estar em todas as enciclopédias.
 
 
Thales de Menezes